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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

Arca de Darwin

02
Ago20

Arte urbana na Amadora

Arca de Darwin

aqui falei da arte urbana na Amadora e da iniciativa "Conversas na Rua" a propósito dos "retratos" de quatro gigantes da cultura portuguesa (Amália, Pessoa, Carlos Paredes e Zeca Afonso, que hoje faria 91 anos). Eis mais cinco murais criados durante a iniciativa:

TAMARA ALVES

(2019)

Rua Pio XII

"Inspirei-me numa Ofélia moderna de Shakespeare, não de uma forma efémera e trágica, mas perpétua, forte e apaixonada. É um tema denso mas poderoso, não é fácil assumir a nossa loucura e fragilidade mas faz-nos mais fortes. Os finais trágicos são os que mais nos ensinam", conta Tamara Alves na sua página no Instagram.

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PEDRO PEIXE

"Sonhar é Imaginar" (2017)

Rua Theys Willemse

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PEDRO PEIXE

"Ballerina" (2018)

Av. General Humberto Delgado

"É um bocado uma reflexão sobre a dança contemporânea. Não é o óbvio, não é uma bailarina a dançar. Ela repousa, descansa entre actos. É mostrar também o movimento, as luzes, as cores, a música", referiu Pedro Peixe à Lusa.

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EIME e SAMINA

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DANIEL EIME

"Carlota" (2018)

Av. do Brasil

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JOÃO SAMINA

"2700" (2019)

Av. do Brasil

O número que constitui o nome da obra, e que surge nela do lado esquerdo, remete para o código postal da zona. O retrato de uma mulher africana visa homenagear a diversidade cultural desta cidade.

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20
Jul20

Letreiros de néon (e não só)

Arca de Darwin

Quando o químico russo Dmitri Mendeleev criou a primeira versão da Tabela Periódica, em 1869, ela continha apenas 62 dos 118 elementos agora conhecidos. A Tabela tinha lugares vazios, correspondentes a diferentes números atómicos (número de protões) que os cientistas tentavam preencher através da descoberta de novos elementos.

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Em 1898, o químico escocês Sir William Ramsay — que já descobrira vários gases nobres como o árgon, o hélio e o crípton — procurava o elemento que preencheria o espaço vazio entre o hélio e o árgon. Em parceria com o químico inglês Morris Travers, trabalhavam com um pedaço de árgon sólido que envolveram em ar líquido. O árgon evaporou-se e eles recolheram o primeiro gás que se formou. Quando o aqueceram, emitiu um brilho inesperado. «O clarão de luz carmesim que irradiava do tubo contava a sua própria história e era uma visão cativante e inolvidável», escreveu Travers.

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O filho de Ramsay, de 13 anos, sugeriu que baptizassem o novo elemento de «novum». Ramsay optou pela formação grega da palavra em detrimento da latina e chamou-lhe néon.

Anos mais tarde, o químico e inventor francês Georges Claude inventou a iluminação néon ao usar uma descarga eléctrica num tubo fechado que continha este gás. As lâmpadas de néon fizeram a sua primeira aparição em 1910 numa exposição em Paris. Em 1912, Claude instalou o primeiro letreiro publicitário de néon numa barbearia da Boulevard Montmartre, em Paris. Em 1923, Claude levou os seus letreiros para os EUA, e o sucesso foi quase imediato.

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Ora, como Travers relatou, a luz produzida pelo néon é vermelha-alaranjada. Como os primeiros letreiros continham néon, foi este gás que baptizou este tipo de iluminação. Mas depois surgiram letreiros de todas as cores (e isto sem falar da actual explosão dos LED). Como é isso possível? Além de usar vidros coloridos, de duas maneiras principais. A primeira é que diferentes gases produzem diferentes cores. «O hélio ou o sódio, por exemplo, produzem uma luz alaranjada, o árgon uma luz cor de alfazema, o crípton um branco azulado ou um verde amarelado, e para o azul pode usar-se xénon ou vapor de mercúrio», lê-se no livro Elementar: A Tabela Periódica Explicada, de James Russell (Vogais, 2020).

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A segunda é revestir os tubos com pós fluorescentes, que podem produzir dezenas de cores.

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Na semana passada, ao percorrer o Bairro Alto, encontrei vários bares e restaurantes que continuam a usar os néons como publicidade ou decoração. Estes letreiros já não têm a importância de outros tempos, mas de certa forma voltaram a ser um sinal de modernidade. Se quiser matar saudades desses outros tempos, saiba que a exposição Luzes da Cidade — que reúne letreiros que enfeitavam as lojas de Lisboa, mas também algumas de Almada, Porto e Coimbra —regressará à Stolen Books de 13 de Agosto a 6 de Setembro de 2020.

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«(...) When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

(...)

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said
The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls
And whispered in the sound of silence»

The Sounds of Silence, Simon & Garfunkel (1965)

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15
Jul20

Buganvília e a mulher que, disfarçada de homem, fez uma viagem de circum-navegação

Arca de Darwin

O seu a seu dono: no que ao mundo ocidental diz respeito, a buganvília foi descoberta pela botânica francesa Jeanne Baret (1740–1807). Quando o fez, em 1768, estava disfarçada de homem, em plena viagem de circum-navegação.

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Miradouro de Santa Luzia

Baret foi a primeira mulher a completar uma viagem deste tipo.

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Jeanne Baret

Pouco se sabe sobre os seus primeiros anos, mas algures entre 1760 e 1764 ela foi trabalhar como governanta para casa de Philibert Commerçon, um francês que se dedicava ao estudo da medicina, botânica e história natural. A mulher de Commerçon morreu pouco depois de dar à luz, e posteriormente ele e Baret acabaram por se envolver (e em 1764, alegadamente tiveram um filho que deram para adopção — pois os nascimentos fora do casamento não eram bem vistos —, e que morreria pouco depois).

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Carnide

No ano seguinte, Commerçon foi convidado pelo almirante e explorador Louis Antoine de Boungaiville (sim, é daqui que vem o nome da planta) para integrar a sua expedição, que tinha como objectivo principal descobrir novos territórios para França. Commerçon queria levar Baret como assistente, mas a marinha francesa não permitia mulheres a bordo dos navios. Solução: Jeanne Baret disfarçou-se de homem e passou a chamar-se Jean Baret. Em 1766, ambos embarcaram no Étoile, um dos dois navios que compunham a expedição. O capitão do Étoile, François Chesnard de la Giraudais, cedeu-lhes os seus aposentos devido à quantidade de material que Commerçon levava consigo. Esta privacidade inesperada terá ajudado bastante a manter a identidade de Baret em segredo, mas parece que cedo houve quem suspeitasse, e até quem descobrisse.

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Lisboa

Na verdade, não se sabe ao certo o que terá acontecido. Três dos participantes na viagem escreveram posteriormente o seu relato da mesma. Um deles foi Bougainville, que em 1771 publicou o livro Le voyage autour du monde, que foi um autêntico sucesso. Bougainville diz que o segredo foi revelado quando desembarcaram no Tahiti, em 1768, e os locais logo a reconheceram como mulher, tendo ela de voltar para o navio para ficar em segurança. A escritora Glynis Ridley discorda. Em 2010, Ridley publicou uma biografia de Baret — The Discovery of Jeanne Baret: A Story of Science, the High Seas, and the First Woman to Circumnavigate the Globe — onde refere que nos diários de três outros tripulantes se encontra uma versão diferente: que Baret foi descoberta e brutalmente violada por outros tripulantes na Papa-Nova Guiné.

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Cacilhas

Para concluir esta parte da história digo-lhe que quando chegaram à República da Maurícia, Baret e Commerçon acabaram por aí ficar, alegadamente para alívio de Bougainville que não queria ser responsabilizado pela presença de uma mulher na sua expedição.

Antes disso, Commerçon passara um mau bocado por enjoar e por ter uma úlcera na perna. Baret cuidou dele e arcou com muito do trabalho nas expedições em terra, onde ganhou reputação de ser forte e corajosa/o. Num desses desembarques, no Rio de Janeiro, Commerçon não saiu da cabine. Já em terra, o capelão do navio foi assassinado, o que ilustra os perigos que estas aventuras comportavam. E foi no Rio que Baret descobriu e recolheu uma nova planta, uma espécie de trepadeira com "flores" cor-de-rosa e roxas. Mais tarde, Commerçon baptizou-a de Bougainvillea, em homenagem ao líder da expedição.

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Baret terá descoberto outras espécies de plantas, mas Commerçon deu o nome dela a apenas uma: a Baretia bonafidia. Ridley conta que esta é uma planta com um conjunto "contraditório" de folhas — algumas são oblongas, outras mais quadradas e outras ainda bastante irregulares — e que Commerçon terá achado que isso era um bom resumo da própria Baret, que reunia em si muitos opostos, incluindo usar roupas de homem e, apesar de ser uma mulher da classe operária, ter ido mais longe do que qualquer aristocrata. Lamentavelmente, os ditames taxonómicos levaram a que o nome do género fosse alterado de Baretia para Turraea.

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Loures

De volta à viagem, o casal ficou na Maurícia até que, em 1773, Commerçon sucumbiu aos seus problemas de saúde. Baret, sem dinheiro para regressar a França — e, inadvertidamente, completar a viagem de circum-navegação — e receber a herança que Commerçon lhe deixara em testamento, ficou a gerir uma taberna em Port Louis, onde acabou por casar com um oficial do exército em 1774, tendo ambos regressado a França provavelmente em 1775.

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Vila Berta

Em 1785, o Ministro da Marinha concedeu a Baret uma pensão anual de 200 livres, salientando que ela, disfarçada, circum-navegou o globo, e que Bougainville, o líder da expedição, referiu a coragem e comportamento exemplar dela…

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No início do século XIX, as buganvílias foram introduzidas em viveiros de França e no Reino Unido, e daí rumaram à Austrália e a outras colónias destes dois países (e daí para onde quer que o clima seja agradável).

De que falamos quando falamos de Bougainvillea? Consoante os autores, este género de plantas trepadeiras, arbustivas, lenhosas e sul-americanas tem entre 4 e 18 espécies, e mais de 300 variedades. As duas espécies mais difundidas são a B. glabra e a B. spectabilis. Originalmente, a glabra, que significa lisa, atinge uma altura menor (cerca de 3 metros) apresenta folhas mais lisas, caules menos espinhosos e "flores" de cor roxa ou magenta. A spectabilis é mais alta (até 12 metros de altura), é mais espinhosa, as folhas têm uma penugem, e as "flores" tipicamente são vermelhas.

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Restaurante Meson Andaluz, Travessa do Alecrim

Mas na natureza já existem vários híbridos destas duas e das restantes espécies de buganvílias, pelo que é muito difícil saber quem é quem. De qualquer modo, há algumas variedades mais famosas, como a "orange-king", que é cor de salmão, e a "branca-de-neve" que, claro, é branca (e que, depois de muito procurar, lá encontrei um exemplar em Lisboa, na Vila Berta).

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Entretanto já deve ter reparado que as flores da buganvília aparecem sempre entre aspas. A razão é porque não são flores, são brácteas, ou folhas modificadas. Estas brácteas têm uma textura muito peculiar, responsável por um dos nomes comuns da Bougainvillea: flor-de-papel. Outro nome, três-marias, remete para o facto de cada "flor" ter três brácteas e de as verdadeiras flores, amarelas ou acinzentadas, surgirem em grupos de três no meio das brácteas.

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A buganvília também é conhecida por sempre-lustrosa, primavera e ceboleiro.

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Miradouro de Santa Luzia

 

Floresce entre Abril e Setembro… num jardim ou quintal perto de si.

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