Arte urbana: “Conversas na Rua” celebram 50 anos do 25 de Abril
No ano em que completa 10 anos, o projeto de arte urbana “Conversas na Rua” da Câmara Municipal da Amadora juntou-se às celebrações dos 50 anos do 25 de Abril e convidou quatro artistas para criarem obras subordinadas aos temas da liberdade, da igualdade e da democracia.

Das quatro obras, ainda não vi a do coletivo Thunders Crew, que se encontra no Parque da Matinha da Venda Nova.
Daniel Eime é o autor da obra da foto em cima, que se encontra na Rua Joaquim Tim-Tim Sítima, na Brandoa. Odeith é o responsável pelo “Salgueiro Maia”, que está na Avenida Dr. Fernando Piteira Santos, nos Moinhos da Funcheira, e Mura, uma artista brasileira radicada em Portugal, é quem nos oferece os cravos na Rua Marechal António de Spínola, no Bairro do Casal da Boba.


Ao olhar para a obra de Daniel Eime comecei também uma conversa não de rua, mas interior, pois lembrei-me de Françoise Hardy, cantora francesa que faleceu este ano, aos 80 anos, vítima de cancro.

Lembrei-me de algumas das suas músicas, incluindo a minha preferida, “La maison où jai grandi”, das suas ideias políticas, que não se pode dizer que estivessem propriamente alinhadas com os ideias de Abril, mas também da carta que escreveu ao presidente Macron a pedir-lhe que legalizasse a eutanásia.

E depois lembrei-me de que por cá não há meio de o Governo regulamentar a lei da eutanásia, uma atitude que, segundo os mais de 250 subscritores da recente carta aberta ao executivo liderado por Luís Montenegro, “é jurídica e politicamente inaceitável” — por lei, devia estar regulamentada há mais de um ano. A carta diz também que “após mais de uma década de debate público e democrático, Portugal aprovou uma lei prudente, equilibrada e justa, que respeita a vontade de todas as pessoas”. As situações contempladas na lei são:
d) «Doença grave e incurável», a doença que ameaça a vida, em fase avançada e progressiva, incurável e irreversível, que origina sofrimento de grande intensidade;
e) «Lesão definitiva de gravidade extrema», a lesão grave, definitiva e amplamente incapacitante que coloca a pessoa em situação de dependência de terceiro ou de apoio tecnológico para a realização das atividades elementares da vida diária, existindo certeza ou probabilidade muito elevada de que tais limitações venham a persistir no tempo sem possibilidade de cura ou de melhoria significativa;
f) «Sofrimento de grande intensidade», o sofrimento decorrente de doença grave e incurável ou de lesão definitiva de gravidade extrema, com grande intensidade, persistente, continuado ou permanente e considerado intolerável pela própria pessoa.
Ao olhar para a imagem do Salgueiro Maia senti a admiração e a gratidão que sempre sinto na sua presença, quer ele se “apresente” num mural, fotografia, reportagem, filme ou documentário. Depois lembrei-me de que ele, tal como Françoise Hardy, também morreu de cancro. E de que pediu uma pensão vitalícia ao Estado “por serviços excecionais e relevantes prestados ao país”, e que esta lhe foi negada pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva, que, todavia, concedeu essa mesma pensão a dois antigos agentes da PIDE.



Ao olhar para a obra de Mura lembrei-me de quão bonito é termos uma revolução com nome de flor.

