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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

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Arca de Darwin

15
Jul20

Buganvília e a mulher que, disfarçada de homem, fez uma viagem de circum-navegação

Arca de Darwin

O seu a seu dono: no que ao mundo ocidental diz respeito, a buganvília foi descoberta pela botânica francesa Jeanne Baret (1740–1807). Quando o fez, em 1768, estava disfarçada de homem, em plena viagem de circum-navegação.

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Miradouro de Santa Luzia

Baret foi a primeira mulher a completar uma viagem deste tipo.

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Jeanne Baret

Pouco se sabe sobre os seus primeiros anos, mas algures entre 1760 e 1764 ela foi trabalhar como governanta para casa de Philibert Commerçon, um francês que se dedicava ao estudo da medicina, botânica e história natural. A mulher de Commerçon morreu pouco depois de dar à luz, e posteriormente ele e Baret acabaram por se envolver (e em 1764, alegadamente tiveram um filho que deram para adopção — pois os nascimentos fora do casamento não eram bem vistos —, e que morreria pouco depois).

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Carnide

No ano seguinte, Commerçon foi convidado pelo almirante e explorador Louis Antoine de Boungaiville (sim, é daqui que vem o nome da planta) para integrar a sua expedição, que tinha como objectivo principal descobrir novos territórios para França. Commerçon queria levar Baret como assistente, mas a marinha francesa não permitia mulheres a bordo dos navios. Solução: Jeanne Baret disfarçou-se de homem e passou a chamar-se Jean Baret. Em 1766, ambos embarcaram no Étoile, um dos dois navios que compunham a expedição. O capitão do Étoile, François Chesnard de la Giraudais, cedeu-lhes os seus aposentos devido à quantidade de material que Commerçon levava consigo. Esta privacidade inesperada terá ajudado bastante a manter a identidade de Baret em segredo, mas parece que cedo houve quem suspeitasse, e até quem descobrisse.

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Lisboa

Na verdade, não se sabe ao certo o que terá acontecido. Três dos participantes na viagem escreveram posteriormente o seu relato da mesma. Um deles foi Bougainville, que em 1771 publicou o livro Le voyage autour du monde, que foi um autêntico sucesso. Bougainville diz que o segredo foi revelado quando desembarcaram no Tahiti, em 1768, e os locais logo a reconheceram como mulher, tendo ela de voltar para o navio para ficar em segurança. A escritora Glynis Ridley discorda. Em 2010, Ridley publicou uma biografia de Baret — The Discovery of Jeanne Baret: A Story of Science, the High Seas, and the First Woman to Circumnavigate the Globe — onde refere que nos diários de três outros tripulantes se encontra uma versão diferente: que Baret foi descoberta e brutalmente violada por outros tripulantes na Papa-Nova Guiné.

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Cacilhas

Para concluir esta parte da história digo-lhe que quando chegaram à República da Maurícia, Baret e Commerçon acabaram por aí ficar, alegadamente para alívio de Bougainville que não queria ser responsabilizado pela presença de uma mulher na sua expedição.

Antes disso, Commerçon passara um mau bocado por enjoar e por ter uma úlcera na perna. Baret cuidou dele e arcou com muito do trabalho nas expedições em terra, onde ganhou reputação de ser forte e corajosa/o. Num desses desembarques, no Rio de Janeiro, Commerçon não saiu da cabine. Já em terra, o capelão do navio foi assassinado, o que ilustra os perigos que estas aventuras comportavam. E foi no Rio que Baret descobriu e recolheu uma nova planta, uma espécie de trepadeira com "flores" cor-de-rosa e roxas. Mais tarde, Commerçon baptizou-a de Bougainvillea, em homenagem ao líder da expedição.

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Baret terá descoberto outras espécies de plantas, mas Commerçon deu o nome dela a apenas uma: a Baretia bonafidia. Ridley conta que esta é uma planta com um conjunto "contraditório" de folhas — algumas são oblongas, outras mais quadradas e outras ainda bastante irregulares — e que Commerçon terá achado que isso era um bom resumo da própria Baret, que reunia em si muitos opostos, incluindo usar roupas de homem e, apesar de ser uma mulher da classe operária, ter ido mais longe do que qualquer aristocrata. Lamentavelmente, os ditames taxonómicos levaram a que o nome do género fosse alterado de Baretia para Turraea.

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Loures

De volta à viagem, o casal ficou na Maurícia até que, em 1773, Commerçon sucumbiu aos seus problemas de saúde. Baret, sem dinheiro para regressar a França — e, inadvertidamente, completar a viagem de circum-navegação — e receber a herança que Commerçon lhe deixara em testamento, ficou a gerir uma taberna em Port Louis, onde acabou por casar com um oficial do exército em 1774, tendo ambos regressado a França provavelmente em 1775.

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Vila Berta

Em 1785, o Ministro da Marinha concedeu a Baret uma pensão anual de 200 livres, salientando que ela, disfarçada, circum-navegou o globo, e que Bougainville, o líder da expedição, referiu a coragem e comportamento exemplar dela…

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No início do século XIX, as buganvílias foram introduzidas em viveiros de França e no Reino Unido, e daí rumaram à Austrália e a outras colónias destes dois países (e daí para onde quer que o clima seja agradável).

De que falamos quando falamos de Bougainvillea? Consoante os autores, este género de plantas trepadeiras, arbustivas, lenhosas e sul-americanas tem entre 4 e 18 espécies, e mais de 300 variedades. As duas espécies mais difundidas são a B. glabra e a B. spectabilis. Originalmente, a glabra, que significa lisa, atinge uma altura menor (cerca de 3 metros) apresenta folhas mais lisas, caules menos espinhosos e "flores" de cor roxa ou magenta. A spectabilis é mais alta (até 12 metros de altura), é mais espinhosa, as folhas têm uma penugem, e as "flores" tipicamente são vermelhas.

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Restaurante Meson Andaluz, Travessa do Alecrim

Mas na natureza já existem vários híbridos destas duas e das restantes espécies de buganvílias, pelo que é muito difícil saber quem é quem. De qualquer modo, há algumas variedades mais famosas, como a "orange-king", que é cor de salmão, e a "branca-de-neve" que, claro, é branca (e que, depois de muito procurar, lá encontrei um exemplar em Lisboa, na Vila Berta).

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Entretanto já deve ter reparado que as flores da buganvília aparecem sempre entre aspas. A razão é porque não são flores, são brácteas, ou folhas modificadas. Estas brácteas têm uma textura muito peculiar, responsável por um dos nomes comuns da Bougainvillea: flor-de-papel. Outro nome, três-marias, remete para o facto de cada "flor" ter três brácteas e de as verdadeiras flores, amarelas ou acinzentadas, surgirem em grupos de três no meio das brácteas.

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A buganvília também é conhecida por sempre-lustrosa, primavera e ceboleiro.

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Miradouro de Santa Luzia

 

Floresce entre Abril e Setembro… num jardim ou quintal perto de si.

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