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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

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Arca de Darwin

21
Mar20

Pandemia e o desrespeito pela Natureza

Arca de Darwin

Sou licenciado em biologia, mas em 2011 trabalhava como jornalista numa revista. Nessa altura escrevi um artigo (que infelizmente não foi publicado) a propósito do lançamento do filme Contágio, o qual nas últimas semanas tornou-se um verdadeiro êxito nas plataformas de streaming. Encontra esse artigo neste post mais em baixo. Já lá vamos.

Nesta fase da pandemia de covid-19 o mais importante é salvar vidas, pelo que devemos cumprir as regras de distanciamento social que figuram no estado de emergência. Este coronavírus provoca pneumonias que matam (só ontem, em Itália, matou 627 pessoas elevando o total de mortos nesse país para 4032).

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É também importante perceber que esta pandemia em parte se deve a um profundo desrespeito pela Natureza (e pelas pessoas que também fazem parte da Natureza) e ao facto de os governos e autoridades mundiais terem ignorado durante anos os alertas por parte dos cientistas, nomeadamente dos epidemiologistas. É uma situação análoga à que acontece com as alterações climáticas — que Greta Thunberg conseguiu momentaneamente devolver à agenda dos media —, com a diferença de as consequências destas ainda não serem tão visíveis.

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Vírus SARS-CoV-2, responsável pela doença covid-19. Crédito: NIAID-RML

No tal artigo de 2011, a legenda de uma fotografia sobre a gripe A de 2009 referia que «Uma pandemia mais severa irá parar o mundo». Eu não tinha uma bola de cristal. Limitei-me a repetir o que vi escrito por epidemiologistas de todo o mundo, e particularmente o que um deles, que tive o privilégio de entrevistar, me disse. Falo do norte-americano Ian Lipkin, que na altura era (e continua a ser) director do Centro para Infecção e Imunidade, professor de Epidemiologia e de Neurologia e Patologia na Universidade da Columbia, e que foi também conselheiro científico de Contágio, realizado por Steven Soderbergh.

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O desrespeito tem três maneiras mais evidentes de desencadear uma pandemia. Uma é a que terá sido responsável pela covid-19: o consumo de animais selvagens, nomeadamente em mercados. Numa entrevista publicada em Fevereiro na Scientific American, Lipkin, que chegara da China, conta o que disse às autoridades desse país sobre este assunto: «"Oiçam, falei com vocês sobre isto em 2003 e 2004 e 2005 e todos os anos desde então. Nós não podemos ter estes mercados." Penso que, finalmente, vamos ter alguma reacção. Este surto poderá ser aquilo que nos permite tornar este ponto inequivocamente claro, porque é tão dispendioso para o governo chinês.»

Outra é a destruição de habitat que leva a que populações selvagens (e os vírus que com elas vivem) passem a estar em contacto com os humanos.

A última são as condições deploráveis de criação em massa de animais para consumo humano. Estes locais são autênticos tubos de ensaio de pandemias. Num livro que escrevi em 2009 sobre a gripe A cito um relatótio de 2008 do Pew Research Center: «Os contínuos ciclos de vírus e outros agentes patogénicos de origem animal que ocorrem em grandes manadas ou rebanhos aumentam as oportunidades para gerar novos vírus através de mutações ou recombinações.»

Ainda sobre estes locais, Lipkin referiu que: «Existem riscos adicionais na produção em massa de animais que são pelo menos tão preocupantes. O uso de antibióticos como promotores de crescimento resultou no aparecimento de bactérias resistentes, pondo em causa a saúde do Homem e dos animais.»

Note-se que o desrespeito pela Natureza não é algo que só acontece lá longe. Em Portugal, nos últimos tempos, os casos sucedem-se: dragagens no Sado, olivais intensivos, aeroporto do Montijo, prospecção de petróleo em Aljezur

A pandemia irá passar. Mas ficará uma crise.

Infelizmente, a receita geral para as crises tem sido serem sempre os mesmo a pagá-la, com austeridade, e nesses períodos o combate às alterações climáticas e a protecção da Natureza desaparecem totalmente de cena.

Temos de garantir condições de vida dignas para as pessoas, temos de criar melhores condições para evitar a próxima pandemia e, se isso não for possível, para lidar com ela (o que, por cá, obviamente será difícil com o continuado desinvestimento no SNS). Temos de garantir que se luta contra as alterações climáticas. Temos de garantir que se protege a Natureza.

O que podemos fazer? Podemos estar informados e protestar (como tem acontecido nos casos nacionais referidos antes). Podemos votar. E, enquanto consumidores, podemos recusar produtos cuja produção tenha impactos graves na Natureza, e optar pelos que são produzidos de forma sustentável.

Eis então o artigo que escrevi em 2011:

O VÍRUS, O PEDRO E O LOBO

A GRIPE A FOI MENOS GRAVE DO QUE SE PREVIA, MAS NÃO SE DEVE MENOSPREZAR UMA PRÓXIMA PANDEMIA. “O RISCO É REAL, E ESTÁ A AUMENTAR”, AVISA O EPIDEMIOLOGISTA IAN LIPKIN.

"Ah , a gripe A foi um não-evento”.“Ah, a pandemia foi uma invenção da indústria farmacêutica”. Não, não foi. A médica Ana Jorge, actual deputada do Partido Socialista e ministra da Saúde durante a pandemia de gripe A, reconhece que parte da população esteja desconfiada, mas defende a actuação das autoridades portuguesas e da OMS. “No início da pandemia havia muito pouca informação técnica sobre o comportamento do vírus. Os dados disponíveis centravam-se em surtos no México e numa zona de fronteira nos Estados Unidos. Nestas áreas a taxa de mortalidade foi elevada, o que sugeria que a doença seria muito grave. E isso obrigou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a tomar medidas agressivas de contenção”, justifica Ana Jorge. E lembra que a OMS adaptou a actuação ao comportamento do vírus. “Numa próxima pandemia a OMS poderá tomar medidas graves, e é importante que o faça, porque é isso que nos garante segurança”.

Também o epidemiologista norte-americano Ian Lipkin está preocupado com as repercussões da gripe A. “O facto de a pandemia H1N1 (gripe A) não ter resultado numa doença mais grave do que a gripe sazonal pode ter levado a uma certa complacência”, admite. Lipkin é director do Centro para Infecção e Imunidade, e é professor de Epidemiologia e de Neurologia e Patologia na Universidade da Columbia. Foi também conselheiro científico do filme Contágio, realizado por Steven Soderbergh.

No filme, um vírus novo mata milhões de pessoas. Ficção? Sim, mas real. “Uma das razões por que quis ajudar a fazer o filme foi ilustrar dramaticamente o risco de um vírus pandémico e altamente letal”, justifica.

AMEAÇA CRESCENTE

Lipkin considera que esta ameaça está a aumentar. Mais de 3/4 das doenças infecciosas surgem quando os micróbios passam de animais selvagens para o Homem. “Há vários casos em que o contacto entre animais selvagens, animais domésticos e humanos originou surtos. Os vírus mais conhecidos são o HIV (sida), o Nipah (encefalite) e o SARS (síndrome respiratória aguda grave). HIV de macacos para o Homem, Nipah de morcegos para porcos e depois para o Homem, SARS de morcegos para uma variedade de animais e depois para o Homem”, refere Lipkin. Segundo ele, a população humana está cada vez mais vulnerável a este tipo de doenças devido à intensificação das viagens internacionais e à globalização da produção de alimentos. Por exemplo, o vírus da gripe A resultou do rearranjo de dois vírus dos suínos, um de origem euro-asiática e o outro que circulava na América do Norte e na Ásia desde 1998. Tanto o surgimento deste vírus – H1N1 – como o da gripe das aves – H5N1 –, em 2003, despertaram as autoridades da saúde para a necessidade de uma monitorização eficaz. “Há maior atenção em rastrear a evolução dos vírus da gripe em aves e porcos”, observa Ian Lipkin. Mas ressalva: “Contudo, existem riscos adicionais na produção em massa de animais que são pelo menos tão preocupantes. O uso de antibióticos como promotores de crescimento resultou no aparecimento de bactérias resistentes, pondo em causa a saúde do Homem e dos animais”. Mais. “Particularmente no que concerne à carne picada, um animal doente pode contaminar e infectar muitas pessoas”. A estes factores de risco somam-se a desflorestação e a urbanização, que continuam a deslocar os animais dos seus habitats, aumentando a probabilidade de contacto com animais domésticos e, por conseguinte, com o Homem. O vírus ficcional que provoca o caos em Contágio surge precisamente quando se destrói o habitat de um morcego. Note-se que o contágio também ocorre no sentido contrário. Desde que apareceu nos Estados Unidos e no Canadá, em 2006, a síndrome do nariz branco matou mais de um milhão de morcegos da espécie Myotis lucifugus. Um estudo publicado este ano na revista Nature confirma que o agente patogénico é um fungo. Pensa-se que turistas inadvertidamente transportaram esporos da Europa, onde a população de morcegos é imune ao fungo, para as grutas onde o mamífero vive nos Estados Unidos. O artigo alerta para o facto de esta doença ter potencial para dizimar a população norte-americana de morcegos. Convém lembrar que os morcegos são peça fundamental dos ecossistemas ao dispersarem sementes e controlarem pragas agrícolas, como os insectos. Um milhão de morcegos devora cerca de 700 toneladas destes artrópodes

INIMIGO PÚBLICO N.º1

Os planos de contingência que vigoravam em vários países antes da pandemia de 2009 eram em grande parte baseados nas características conhecidas do vírus da gripe das aves, e na possibilidade de que adquirisse capacidade de transmissão entre humanos. O receio era grande. As medidas tomadas para conter os surtos do H5N1 foram extremas. Em apenas três meses mais de 120 milhões de aves morreram ou foram exterminadas na Ásia, Europa e África. Mas desde que surgiu, em 1987, o vírus infectou 565 pessoas, das quais 331 morreram. Muitos cientistas consideram que se até hoje o H5N1 não adquiriu a capacidade de transmissão entre humanos, já não o fará.

Ora, em Contágio, cuja plausibilidade do argumento foi louvada por cientistas e revistas como a New Scientist, há uma cena em que um militar, preocupado com a segurança nacional, pergunta a um especialista do CDC (Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças) se o novo vírus será uma arma criada pelo Homem. O especialista responde: “Ninguém precisa de tornar a gripe das aves numa arma. As aves estão a fazê-lo”. Fora da tela o virologista Ron Fouchier, do centro Médico Erasmus, na Holanda, apresentou em Setembro passado, num congresso sobre gripe, os resultados das suas experiências. Ele criou em laboratório uma arma letal. Qual? O vírus H5N1, com capacidade de se transmitir entre indivíduos com a mesma facilidade do vírus da gripe sazonal. Para tal basta juntar num mesmo vírus cinco mutações, as quais já existem em aves. “Se existem em separado podem existir juntas”, explica Fouchier. A experiência realizou-se com o furão, animal que reage aos vírus da mesma maneira que os humanos. Contudo, há quem argumente que a diferença entre as espécies impede a extrapolação deste resultado para o Homem.

O virologista Peter Doherty, prémio Nobel da Medicina em 1996, pensa de maneira diferente. “Isto demonstra com clareza que o H5N1 pode mudar de maneira a tornar-se transmissível, mantendo a capacidade de provocar doença grave nos humanos. É assustador”, comentou Doherty à New Scientist. Ian Lipkin alinha pela mesma bitola: “Fouchier é um cientista excelente e o seu trabalho é convincente. Dito isto, é impossível quantificar a ameaça que o H5N1 representa”. Ainda assim, o médico Larry Brilliant, que participou no Programa de Erradicação da Varíola e presenciou o último caso da doença, traçou um cenário negro: “Não temos vacinas disponíveis nem antivirais suficientes para combater a gripe das aves nos próximos três anos, caso o vírus adquira capacidade para se transmitir entre humanos. Será pior do que o furacão Katrina. O mundo irá parar”.

DE OLHO NOS VÍRUS

Nenhum país está preparado para enfrentar uma pandemia severa. “O nosso sistema de saúde pública está subfinanciado e sobrecarregado (…), precisamos de mais e melhor coordenação entre agências locais, federais e internacionais”, escreveu Lipkin referindo-se aos Estados Unidos, num artigo que publicou em Setembro passado.

Uma análise à eficácia do Regulamento de Saúde Internacional (IHR) em relação à pandemia de gripe A, publicada este ano pela OMS, conclui que ainda há muito a fazer: “Muitos países não têm capacidade para detectar, aferir e reportar potenciais ameaças à saúde”.

Neste cenário, e perante a crescente ameaça de nova pandemia, o que fazer? “Para nos protegermos das coisas que são os piores pesadelos da humanidade precisamos de um sistema de vigilância que permita detecção e resposta precoces”, disse Larry Brilliant, em 2006, durante uma conferência. Brilliant criou a Fundação Seva que, em 27 anos, devolveu a visão a 2 milhões de cegos, em 15 países. Em 2006 venceu o prémio TED, que distingue e concede um desejo a indivíduos excepcionais. O seu desejo foi que todos ajudassem a construir o tal sistema de vigilância, e que o façam desenvolvendo uma rede já existente – o GPHIN (Global Public Health Intelligence Network), criado pela OMS. “A única maneira de evitar que uma epidemia se torne global é detectá-la cedo e pôr cada um dos vírus na prisão”, defende Brilliant. “A SARS é uma pandemia que não ocorreu porque o GPHIN a detectou três meses antes de a OMS anunciar a sua existência”, salientou. Lipkin, que na última década descobriu cerca de 400 novos vírus, viajou para Pequim durante o surto de SARS, em 2003, a pedido do governo chinês. “Foi a experiência mais assustadora por que passei. Contraí a doença e fiquei enfermo durante cinco dias”, partilha.

Sobre o GPHIN lembra que “é um sistema online que não tem pessoas no terreno a investigar surtos e a recolher amostras. Há muitas instituições governamentais, universidades e Organizações Não Governamentais dedicadas à vigilância. Contudo, o maior investimento é feito pela Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) através do programa PREDICT (sistema global de alerta precoce)”.

SINAIS DE ESPERANÇA

Lipkin critica o actual processo de fabrico de vacinas da gripe, que se mantém inalterado há décadas, e defende que é possível reduzir em vários meses o tempo de produção. “A maioria das vacinas contra a gripe é produzida em ovos fertilizados. O processo de seleccionar uma estirpe que se desenvolva bem em ovos consome muito tempo, tal como o de massificar a produção de vacinas, que além de demorado, é dispendioso. Já se produzem vacinas em células de insectos, leveduras e até em plantas, o que reduz os custos e acelera a produção”, informa.

Inúmeras investigações visam compreender e combater os diferentes vírus. Mas há uma que ganhou novo fôlego com o lançamento de Contágio. Cientistas das universidades de Warwick e Liverpool, no Reino Unido, dedicam-se a estudar o número de contactos que cada indivíduo tem com outros no dia-a-dia, e a forma como estas interacções contribuem para a propagação de doenças altamente infecciosas. O projecto começou em 2008 e termina este ano. Em Outubro contavam com uma amostra de 6.000 pessoas, mas precisavam de pelo menos 10.000. Assim que surgiu o trailer de Contágio choveram propostas de colaboração. Os investigadores garantem que esta pesquisa salvará vidas.

Os cidadãos têm também papel crucial no combate a uma próxima epidemia, porque são eles os agentes de contágio. Assim, e apesar dos avanços científicos que permitem criar vacinas e antivirais, as duas principais armas para combater a pandemia existem há muito: água e sabão. E regras de civismo, como não espirrar para cima dos outros.

 

 

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