A cobra que não o é
O Bioblitz da Tapada, em Lisboa, teve mais de uma dezena de actividades. Além da actividade dedicada aos micromamíferos, abordados nos dois posts anteriores, também participei na dos Répteis e Anfíbios. Anfíbios, nem vê-los. Mas os répteis foram uma óptima oportunidade para observar (e fotografar) a cobra-cega (Blanus cinereus), que é um endemismo ibérico — só existe em Portugal e Espanha.

O aspecto da cobra-cega é duplamente enganador. Primeiro, não se trata de uma cobra. As cobras e a cobra-cega pertencem à mesma ordem, a Squamata, mas a famílias diferentes: Colubridae e Amphisbaenidae, respectivamente.

Segundo, a cobra-cega poderá parecer uma minhoca porque as suas escamas, ao estarem dispostas regularmente em filas longitudinais, lembram os anéis dos anelídeos.

Os olhos são vestigiais e estão cobertos por escamas. O corpo é cor-de-rosa ou cor de salmão, mas também pode ser acinzentado ou arroxeado. O comprimento pode chegar aos 28 centímetros. A cabeça é triangular e está delimitada por um sulco transversal.


A cobra-cega tem hábitos subterrâneos, pelo que vive em solos pouco compactados e fáceis de escavar. Alimenta-se de formigas e larvas de insectos e de outros artrópodes que captura no subsolo.

Durante a actividade dos répteis e Anfíbios foram capturados mais dois répteis já nossos conhecidos:
— a osga-comum (Tarentola mauritanica), de quem já falámos aqui, aqui e aqui.


— e a lagartixa-do-mato (Psammodromus algirus), de quem já falámos, por exemplo, aqui.


Os monitores da actividade trouxeram ainda uma muda de pele de cobra-de-ferradura (que entretanto mudou o nome de Coluber hippocrepis para Hemorrhois hippocrepis — o gaiteiro-negro já não está sozinho no seu azar) que tinham encontrado na Tapada no dia anterior.










Como o nome indicia, é um endemismo ibérico que habita o noroeste da península. A poluição dos cursos de água, a destruição dos habitats ribeirinhos e a introdução de peixes exóticos são os principais factores que ameaçam a espécie. Por cá tem estatatuto de conservação Pouco Preocupante (LC - least concern), mas em Espanha está Quase em Perigo (NT - near threatened).




















