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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

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Arca de Darwin

27
Out14

A estrela de "Aracnofobia"

Arca de Darwin

Lembra-se do filme Aracnofobia? A espécie utilizada em muitas cenas foi a Aranha-de-Huntsman (Huntsman spider) - Delena cancerides - a qual encontrei aqui em Perth, e que ocorre em toda a Austrália.

Apesar da "fama" e do aspecto, raramente morde humanos. A picada provoca dor, mas não requer cuidados especiais, ao contrário do que acontece com a da Redback..

huntsman spider

Ao contrário da "personagem" do filme, esta espécie não constrói teias, pelo que caça activamente as presas.

Em comum com a "personagem" tem o facto de ser uma aranha social - o que é coisa rara entre aranhas -, chegando mesmo a partilhar alimentos com outras aranhas. No entanto - e como acontece com outras espécies -, também pratica canibalismo, principalmente com indivíduos de outras colónias.

O filme também retrata fielmente o tamanho: o corpo mede entre 20 e 35 milímetros de comprimento (as fêmeas são maiores do que os machos), mas as pernas chegam a ter 20 centímetros de envergadura.

30
Jun14

Aranha da teia dourada ("Nephila edulis")

Arca de Darwin

Aqui na Austrália há uma família de aranhas conhecida por Golden orb-weaving, isto é, aranhas que constróem teias arredondadas e douradas. São aranhas de grande dimensão, como esta Nephila edulis, que mede 23 milímetros (o macho mede apenas 6 mm).

Nephila edulis 1

Há várias curiosidades sobre esta espécie, como o nome - edulis -, que significa comestível (diz que, assada no espeto, é um pitéu para os lados da Nova Guiné...).

Nephila edulis 2

O nome comum revela outra particularidade: a teia dourada. Esta, além da bonita cor, é bastante forte, sustendo até impactos de pequenas aves. Tem cerca de 1 metro de diâmetro, mas os fios que a suportam medem até 8 metros. Quando se sente ameaçada a aranha abana a teia, fugindo a coberto do "estardalhaço" de reflexos dourados que confunde os predadores.

Nephila edulis 3 Nephila edulis 4 Nephila edulis 5

A N. edulis é bastante comum e não é perigosa para os humanos. É fácil de observar dado que passa o dia na teia. O minúsculo macho também vive nas extremidades da teia - aliás, meia dúzia deles ronda por ali -, na esperança de acasalar. Se conseguir, o mais provável é acabar como repasto para a fêmea.

Nephila edulis 6 Nephila edulis 7

A fêmea e os seus pretendentes não são os únicos habitantes da estrutura sedosa. De facto, várias pequenas aranhas prateadas mantêm uma relação simbiótica com a N. edulis: as primeiras alimentam-se dos inúmeros insectos capturados na teia e que são pequenos para a N. edulis, a qual beneficia dos serviços de limpeza das pequenas aranhas, que mantêm a teia limpa e livre de parasitas.

Nephila edulis 8 Nephila edulis 9 Nephila edulis a 10

31
Mar14

A Aranha-das-costas-vermelhas e os danos colaterais das medidas de segurança

Arca de Darwin
Antes de chegar à Austrália avisaram-me: "Cuidado com a aranha Redback: a picada é muito dolorosa". Procurei na net imagens da dita de modo a reconhecê-la quando a visse. Demorei mais de um mês a encontrá-la, mas uma destas manhãs lá estava ela, por baixo da minha caixa do correio, às voltas com um pequeno réptil que caçara.redback 2 (800x512)Conhecida por "redback spider" pertence à espécie Latrodectus hasseltii. Como o nome comum indica, a risca vermelha no abdómen da fêmea é característica que a identifica. Os machos não têm esta risca, são mais pequenos (o corpo mede cerca de 4 mm) e menos perigosos do que as fêmeas.redback 1 (800x533)Elas medem cerca de 10 mm e até à descoberta do antídoto, em 1956, foram responsáveis por 14 mortes na Austrália.redback 3 (800x533)No passado, quando as casas de banho situavam-se no exterior das habitações, estes aracnídeos costumavam picar os incautos humanos nos genitais.

redback 4 (531x800)

Actualmente isso já não acontece, mas, todos os anos, entre 2.000 e 10.000 pessoas são mordidas pela redback. A grande maioria das picadas acontece nas mãos ou nas pernas, mas nas últimas décadas surgiram várias queixas de picadas no pescoço e na cabeça. Porquê? Porque na Austrália é, desde os anos 90, obrigatório usar capacete quando se anda de bicicleta. Ora, capacetes guardados em arrecadações, ou largados no chão, convidam as aranhas a aí se aninharem.ciclista (800x533)
04
Jan14

A aranha e a cruz

Arca de Darwin
Ontem vi uma Araneus diadematus. Esta aranha tem uma característica que salta à vista: uma cruz branca no abdómen, formada por quatro manchas alongadas e uma mancha redonda central. A cruz reflecte-se em alguns nomes comuns da espécie, mas há outros: aranha-de-cruz, aranha-diadema, aranha-dos-jardins, epeira-de-cruz, epeira-dos-jardins, tecedeira-de-cruz-cosmopolita.

Aranha-de-cruz (Araneus diadematus), Azóia, Sesimbra

Os nomes também indiciam um dos seus habitats. De facto, estas aranhas são comuns em jardins, embora também frequentem matas e áreas com arbustos e árvores.

O exemplar da foto é uma fêmea. Estas são maiores do que os machos  – medem 12 a 17 mm enquanto eles ficam-se pelos 5 a 10 mm  – e apenas elas constróem teias para caçar.Foge quando perturbada, mas, no caso de atacar, saiba que a picada é inofensiva para os humanos.
06
Nov13

Maria-café: o terror dos comboios!

Arca de Darwin
A versão australiana da irritante mensagem “A circulação de comboios foi interrompida devido a uma avaria” é: “A circulação de comboios foi interrompida devido às marias-café portuguesas”. Pior. Por mais incrível que pareça, em Setembro passado a mensagem foi: “Os comboios chocaram por causa das marias-café portuguesas”.

Maria-café (Ommatoiulus moreletii), Odivelas

Bem, na verdade, eles chamam-lhe “portuguese millipede”, em alusão às numerosas patas e à origem geográfica (é uma espécie ibérica), mas a restante informação está correcta. O animal em causa é a maria-café (Ommatoiulus moreletii) – conhecida na Madeira por bicho-de-vaca ou vaca-preta –, artrópode que tem um par de patas por segmento (pertence à classe Diplopoda) e mede entre 2 e 4 centímetros.

Nos anos 50 do século passado foi acidentalmente introduzida na Austrália. Com poucos ou nenhuns predadores naturais a espécie reproduziu-se até atingir números que a classificaram como praga (por cá a espécie tem vários predadores, e é um verdadeiro pitéu para o lacrau e para o ouriço-cacheiro).

Em Setembro, e segundo a agência Reuters, centenas de marias-café “ocuparam” os carris das linhas ferroviárias em Clarkson, cerca de 40 km a norte de Perth, na Austrália Ocidental. À medida que eram esmagadas, atapetavam a superfície dos carris com a viscosa substância das suas entranhas. Esta “pista” escorregadia terá dificultado a travagem de um comboio, provocando o choque com um outro que se encontrava parado. Em 2002, numa “ocupação” semelhante – mas desta vez na outra ponta da Austrália –, a precaução ditou o cancelamento de 50 comboios no percurso entre Melbourne e Ballart.

Para a maria-café, as entranhas são uma mais-valia. De facto, quando ameaçada ela recorre a duas estratégias de defesa: a primeira é enrolar-se e fingir-se morta; a segunda é libertar um líquido repelente (cianeto de hidrogénio). Daí que não convém esmagá-la se a encontrar em casa, o que é provável nesta época do ano, em que ela refugia-se da chuva e do frio.

Além de servir de repasto a muitas outras espécies, a Ommatoiulus moreletii tem outro importante papel nos ecossistemas: ao alimentar-se de matéria vegetal morta (é, portanto, um animal detritívoro) recicla os nutrientes e devolvendo-os à cadeia alimentar.
03
Set13

A melhor prenda

Arca de Darwin
No início de Julho fui à praia com duas amigas. Uma delas, a Leonor, tem 5 anos e é, tanto quanto sei, a leitora mais nova da Arca. Na altura, essa ida originou um post onde se vê o balde da Leonor cheio de paguros (ou caranguejos-ermitas) que apanhámos e, mais tarde, devolvemos ao mar. No fim de semana passado reencontrámo-nos. Já sabia que ela tinha uma prenda para mim, mas não sabia o que era. Foi isto:

Na altura de escolher a prenda, a mãe da Leonor ainda sugeriu uma medusa. “Não, tem de ser um caranguejo-ermita”, respondeu a Leonor. Não consigo imaginar uma prenda mais especial, tanto mais que veio acompanhada de este sorriso:

10
Jul13

Ser criança na praia é...

Arca de Darwin
.... apanhar paguros (também conhecidos por caranguejo-eremita, casa-alugada e bernardo-eremita), colocá-los num balde e ficar “horas” a tirá-los à vez e a vê-los pôr a cabeça e as tenazes de fora da casa-alugada (estes crustáceos, da sub-família Paguroidea, ocupam cascas abandonadas de búzios e de caracóis. À medida que crescem mudam-se para “apartamentos” maiores).

Paguros, Tróia, Setúbal

Ser criança na praia também é apanhar aqueles irrequietos escaravelhos pretos (Timarcha sp.) que se passeiam na areia escaldante e sentir na palma da mão as cócegas provocadas pelas pequenas patas. E é escaparem-se entre os dedos ou caírem pela borda da mão sem que nada lhes aconteça e, uma vez no chão, tapá-los com areia e admirar a capacidade para se desenterrarem e prosseguir viagem.

É claro que ser criança é ainda muitas outras coisas. É fugir das ondas; apanhar conchas; fazer construções na areia; sair da água a tiritar; andar besuntado com quantidades industriais de protector solar; esperar ansiosamente pela hora a que passa a/o vendedor de bolas de Berlim; chegar à praia e olhar ansiosamente para o pau da bandeira (e esperar que esteja verde); mergulhar com um dos braço esticado e usar o polegar e o indicador da mão do outro braço para tapar o nariz; é escavar um buraco na areia molhada da baixa-mar, e ver uma piscina; ...; e é rebolar na rebentação das ondas: