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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

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Arca de Darwin

02
Nov14

Águia-pesqueira - no Alqueva e em Perth

Arca de Darwin

A águia-pesqueira (Pandion haliaetus) é uma verdadeira cidadã do mudo: existe nos 5 continentes. É uma ave imponente, com 60 centímetros de comprimento e 1,65 metros de envergadura, que se alimenta exclusivamente de peixe.

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Em Perth, Austrália, é comum ao longo das margens do rio Swan onde facilmente se avistam os ninhos no topo dos gigantes pinheiros de Norfolk.

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A situação em Portugal é bem diferente. Em 1997 o desaparecimento do último casal reprodutor foi amplamente noticiado nos media. Recentemente, em 2012, iniciou-se um projecto de reintrodução da espécie na região do Alqueva. Segue-se um artigo que na altura escrevi sobre o assunto.

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À ESPERA DA ÁGUIA-PESQUEIRA

TERMINOU A PRIMEIRA FASE DO PROJECTO DE REINTRODUÇÃO DA ÁGUIA-PESQUEIRA EM PORTUGAL. DAS DEZ AVES LIBERTADAS, SETE RUMARAM AO NORTE DE ÁFRICA. OUTRAS 40 SERÃO LIBERTADAS NOS PRÓXIMOS QUATRO ANOS. SE TUDO CORRER BEM ESTAS AVES PROVENIENTES DA SUÉCIA E DA FINLÂNDIA VOLTARÃO AO NOSSO PAÍS PARA SE REPRODUZIREM, O QUE HÁ MUITO NÃO ACONTECE.

A imagem de uma águia-pesqueira (Pandion haliaetus) a caçar é inesquecível. Primeiro paira elegantemente sobre o espelho de água, batendo aqui e ali as enormes asas. Localizada a presa, acelera na sua direcção, de cabeça para baixo e com o corpo em forma de ‘W’. No instante antes de contactar com a presa coloca as poderosas garras à frente, e logo a seguir crava-as no corpo do desafortunado peixe. Por vezes mal toca na água, parecendo que a presa como que por magia se lhe cola às patas. Noutras, quebra a superfície líquida como quem mergulha de chapão na piscina, mas logo emerge, voando até um poiso onde desfruta da refeição.

Estuários do Tejo e Sado, Lagoa de Santo André e Ria Formosa são alguns dos locais onde os amantes da natureza podem observar este espectáculo, principalmente nos meses de Abril, Março e Setembro, durante as migrações. No entanto, há muito que a espécie não se reproduz no nosso país. Em 1997, na costa alentejana, morreu a fêmea do último casal nidificante.

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Em Julho passado, técnicos do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto iniciaram o Projecto de Reintrodução da Águia-pesqueira em Portugal, que tem a duração de cinco anos. A iniciativa tem financiamento da EDP, no valor de 640 mil euros, e apoio da Sociedade Alentejana de Investimentos e Participações, da Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, da TAP Portugal e do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade.

 

No final do projecto, se tudo correr como esperado, haverá dois casais reprodutores em terras lusas. “Parece pouco face ao número de aves libertadas, mas trata-se de reprodutores pioneiros”, justifica a bióloga Andreia Dias, coordenadora executiva da iniciativa. E explica: “A fundação de um núcleo reprodutor é um processo lento e complexo, que será mais rápido a partir do momento em que os primeiros casais funcionarem como pólo de atracção para outras aves que ainda não constituíram casais e territórios estáveis”.

As experiências de reintrodução realizadas noutros países europeus registaram valores iniciais semelhantes. A primeira ocorreu no Reino Unido, entre 1996 e 2001, período em que foram libertadas 64 crias na Reserva Natural de Rutland Water. Em 2001 existia um casal reprodutor, e em 2010 já eram cinco. Até ao ano passado nasceram dez crias. Em Espanha, na Andalúzia, um projecto iniciado em 2003 libertou 108 juvenis até 2010. Em 2005 formou-se o primeiro casal, que se instalou na barragem de Guadalcacín, a 20 quilómetros do local onde foram libertados. “Em 2009 nasceram as primeiras três crias de um casal proveniente do projecto de reintrodução, nas Marismas del Odiel. Na Andaluzia existem actualmente três casais nidificantes e vários indivíduos em instalação”, refere Andreia Dias.

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TERRA ADOPTIVA

A ideia é simples: recolher crias de águia-pesqueira em populações europeias estáveis; trazê-las para Portugal; deixar que durante algumas semanas se habituem ao novo habitat; esperar que o identifiquem como local de “nascimento” (técnica conhecida como hacking); e que a ele regressem depois de migrarem para passar o Inverno em climas mais quentes. Se o fizerem cumprir-se-ão os principais objectivos deste projecto de reintrodução: “O restabelecimento de uma população reprodutora de águia-pesqueira em Portugal continental, o qual favorecerá a expansão da espécie no sul da Europa, contribuindo para quebrar o isolamento geográfico e, assim, reduzir o risco de extinção das pequenas populações residuais da região mediterrânica”, explica Andreia Dias. “Em última análise, pretende-se que contribua para a recuperação da espécie ao longo da costa rochosa portuguesa, onde existe evidência histórica da sua nidificação, em particular no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina”.

O projecto está pensado para cinco anos, durante os quais serão libertadas 50 aves. Em Julho chegaram à Herdade do Roncão, em Reguengos de Monsaraz e paredes meias com a barragem do Alqueva, as dez primeiras águias. Tinham cerca de quatro semanas. Cinco vieram da Suécia (uma fêmea e quatro machos) e cinco da Finlândia (três fêmeas e dois machos). Passaram algumas semanas em gaiolas colocadas numa torre com vista para a planície. Durante este período desenvolveram as penas necessárias ao voo. Na manhã de 30 de Julho, após alguns exercícios de aquecimento, as jovens aves suecas voaram pela primeira vez. A 8 de Agosto libertaram-se as águias finlandesas.

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Para a equipa e para os especialistas europeus que compõem o painel consultivo do projecto o balanço deste primeiro ano é positivo. “No entanto, teremos de melhorar alguns aspectos técnicos no próximo ano. Durante o período de permanência na torre de hacking, o único problema clínico que ocorreu foi uma lesão articular numa pata de um dos indivíduos, inicialmente de pouca gravidade mas que evoluiu negativamente, possivelmente devido a uma pré-disposição física desse indivíduo”, conta Andreia Dias. A ave foi assistida no Hospital Universitário de Évora, mas como a situação se agravou foi transferida para um centro de reabilitação em Madrid, onde existe uma equipa especializada no tratamento e fisioterapia de animais selvagens. Mas esta não foi a única baixa do projecto. “Duas aves foram predadas por raposas após a libertação. Encontrámos e recolhemos os respectivos emissores e anilhas, além de penas com sinais óbvios de terem sido. Na imediação do local de libertação existe um território de reprodução de raposas, com dois juvenis, pelo que já agendámos a desmatação dessa zona, de modo a tornar o sítio pouco atractivo para as raposas”, informa a coordenadora.

CONSERVAÇÃO POLÉMICA

O projecto de reintrodução da águia-pesqueira em Portugal foi alvo de várias críticas, principalmente em sites e blogues de ambiente. Uns argumentam que se trata de uma inutilidade, porque a espécie continua presente no país como migradora, outros que há espécies cuja conservação é mais premente, e até mais barata; outros ainda que não faz sentido reintroduzir numa albufeira interior uma espécie que vivia no litoral rochoso, e que a escolha do Alqueva se prende com o patrocínio e interesses da EDP.

Para a equipa responsável pelo projecto há factores que atestam a sua relevância conservacionista. “Um é de carácter nacional. A águia-pesqueira era relativamente comum ao longo do litoral e foi uma das poucas espécies de vertebrados a extinguir-se recentemente como reprodutora no país. Ao contrário de outras espécies que estiveram em situação idêntica, como a águia-imperial e o abutre-negro, a probabilidade de recuperação natural a partir do exterior é praticamente nula, dados o isolamento geográfico, a debilidade populacional dos núcleos residuais do Mediterrâneo e da Macaronésia e a acentuada filopatria (tendência para animais migradores regressarem ao local onde nasceram)”, argumenta Andreia Dias. Mais. “O guincho (nome por que a espécie também é conhecida) é um elemento importante da memória colectiva das populações costeiras, que deixou inúmeros registos toponímicos ao longo do litoral continental (como a praia do Guincho) e do arquipélago da Madeira. O termo ainda hoje é utilizado para denominar a espécie nas Canárias e em Cabo Verde”, diz a bióloga. Finalmente, “a reconstituição de populações extintas no Sul da Europa é uma medida estratégica fundamental para reconstituir o continuum populacional com a Europa central e setentrional, e assim garantir a conservação a longo prazo das populações remanescentes da região mediterrânica, tal como foi recomendado pelos especialistas reunidos em Urbino, Itália, no European and Mediterranean Osprey Symposium, em 1996”.

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Sendo relevante, a conservação da águia-pesqueira em Portugal será prioritária? “Obviamente que existirão outras espécies com problemas de conservação bem mais graves e difíceis de resolver. No entanto, os projectos não são levados a cabo apenas em função da sua urgência e prioridade, mas também na sequência de oportunidades cujas lógicas não são de teor biológico”, contrapõe Andreia Dias. “A oportunidade surgiu agora, mas este projecto deveria ter ocorrido muito antes do desaparecimento dos últimos reprodutores. A conservação depende cada vez mais do financiamento não estatal, e embora seja desejável canalizar esses financiamentos para as prioridades de topo, tal não é passível de ser imposto. A alternativa é a imobilidade”, conclui.

 

O biólogo Pedro Beja, investigador do CIBIO e um dos mentores do projecto, admite que a conservação desta espécie “não é prioritária”, mas defende que ela é “catalisadora de sensibilização ambiental, para criar um estado mental diferente, em que nos damos conta de ser possível fazer coisas”. O projecto de reintrodução contempla um programa de informação baseado em acções de divulgação em escolas, associações, colectividades locais e autarquias. “A águia-pesqueira é uma espécie conspícua, à qual não estão associadas situações conflituosas. A sua reintrodução constitui uma oportunidade para mostrar que é possível e desejável corrigir atentados graves cometidos sobre a biodiversidade e o património natural do país”, diz Andreia Dias.

Porquê a escolha da barragem do Alqueva? “Especialistas europeus consideram a reintrodução em estuários e albufeiras artificiais como a melhor estratégia para a reconstituição de uma população nidificante e para a posterior recolonização da costa rochosa marítima”, lembra Andreia Dias. E explica: “Há maior acessibilidade das presas nestes habitats de águas calmas, em contraste com as condições de turbulência marítima. Por outro lado, os problemas de ordenamento que ainda afectam a costa rochosa não garantem o sucesso da reintrodução”. A bióloga nota ainda que a barragem do Alqueva tem uma extensa orla de baixa profundidade, ideal para o tipo de caça da águia-pesqueira, e que a turbidez só aumenta no final do verão, já depois do período reprodutor da espécie.

UMA OUTRA PRIMAVERA

Nos próximos anos a equipa do projecto libertará animais noutras regiões para promover a dispersão da espécie. “A reintrodução deverá desenvolver-se em seguida também numa outra área, nomeadamente um grande estuário (Tejo ou Sado)”, revela Andreia Dias, acrescentando que também estão previstas “medidas de ordenamento na costa rochosa que potenciem a médio prazo a sua recolonização”. E termina: “Após os primeiros cinco anos do projecto, o sucesso dependerá de reforços populacionais”.

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Estima-se que no final deste período se verificarão tentativas de nidificação por parte de dois casais. Com o tempo talvez os portugueses reconheçam e tratem uma águia-pesqueira pelo nome, e anseiem pelo seu regresso, como acontece há 21 anos em Dunkeld, na Escócia, onde a chegada de Lady é sempre notícia. Em Março passado, para gáudio de muitos seguidores, Lady completou mais uma viagem de 4.800 quilómetros desde a Gâmbia, na África Ocidental, onde passara o Inverno. Na verdade, um caso semelhante ao de Lady é pouco provável. Habitualmente as águias-pesqueiras vivem oito anos e produzem cerca de 20 crias. Lady tem pelo menos 21 anos e já pôs 56 ovos. Mas para os amantes da natureza já será bom desfrutar de um regresso que também anuncia a chegada de uma nova estação, tal como o fazem as andorinhas.

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23
Out14

Garça-branca-grande (Cromos Repetidos #6)

Arca de Darwin

O Outono e o Inverno são as melhores alturas do ano para observar a garça-branca-grande (Ardea alba) em Portugal. Não é fácil, pois a espécie é rara no nosso país, mas o número de indivíduos invernantes tem aumentado desde a década de 80.

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Estuário do Douro, Ria de Aveiro, Estuário do Sado, Lagoa de Santo André e Lagoa dos Salgados são alguns locais onde a espécie ocorre. Atenção: convém não confundir com a "prima" garça-branca-pequena (Egretta garzetta), mais pequena e muito mais abundante.

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De facto, enquanto esta última mede 60 centímetros de comprimento, a versão grande chega aos 90 centímetros, um tamanho que de modesto tem nada, mas alguém achou por bem baptizar assim a subespécie que existe aqui na Austrália, ou seja, Ardea alba modesta (Eastern Great Egret).

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O pescoço é enorme e o seu comprimento é superior ao do resto do corpo. A envergadura das asas chega aos 1,5 metros e o corpo pesa cerca de 1 quilo.

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Os peixes são a principal fonte de alimento, mas também consome crustáceos, anfíbios, répteis, moluscos, insectos, aves e mamíferos - tudo o que se move, portanto.

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20
Set14

Cromos repetidos (#4): GALEIRÃO - cidadão do mundo

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O galeirão (Fulica atra) já apareceu em alguns posts da Arca, mas nunca foi formalmente apresentado. Se já o viu - o que não é difícil, pois é uma ave bastante comum - por certo lembra-se das duas características que o tornam inconfundível: plumagem preta e bico e escudo frontal brancos.

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No Inverno juntam-se em bandos numerosos, num qualquer lago, estuário ou albufeira. As três imagens seguintes são do estuário do Tejo, em Alcochete, local onde vi a maior aglomeração de galeirões.

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Durante a época de reprodução tornam-se bastante agressivos e tanto o macho como a fêmea defendem o seu território.

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Na Austrália chamam-lhe Eurasian Coot, mas o nome não faz jus à adaptabilidade desta espécie, que existe em grande parte da Europa e também da Ásia, na Austrália e no Norte de África.

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A dieta omnívora explica parte desta plasticidade. De facto, o galeirão alimenta-se tanto em terra como na água (à superfície ou debaixo dela), consumindo algas, ervas, sementes, frutos e até ovos de outras aves.

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O escudo branco e luzidio originou a expressão "bald as a coot" (careca como um galeirão), usada pelos britânicos pelo menos desde 1430.

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Mede 38 centímetros de comprimento.

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18
Set14

A Rola que ri

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A rola-do-Senegal (Streptopelia senegalensis) - encontra-a no Guia de Aves da FAPAS - já foi avistada em Portugal (duas vezes até 2009), mas provavelmente tratavam-se de animais domésticos que fugiram (ou foram libertados) do cativeiro. Assim, pertence à Categoria D, ou seja, espécies cuja observação foi confirmada pelo Comité Português de Raridades, mas duvida-se da sua origem "selvagem".

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Em Perth, Austrália, a história repete-se: trata-se de mais uma espécie exótica, libertada pelo zoo local em 1898.

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O nome comum, Rola-que-ri (Laughing Dove), deve-o ao canto arrastado que lembra uma gargalhada. Já o nome científico revela o país de origem do exemplar usado para descrever a espécie pela primeira vez. De facto, é oriunda da África subsariana e a sua área de distribuição estende-se até à Índia.

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Identifica-se pelo "colar" castanho com pintas pretas, cor rosada no peito e na cabeça, e banda azulada nas asas.

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Mede 25 centímetros e alimenta-se de grãos e sementes que encontra no solo.

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