Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

Arca de Darwin

22
Fev20

Periquito-de-colar versão AZUL

Arca de Darwin

Ao longo dos últimos 40 anos o periquito-de-colar (Psittacula krameri) tornou-se uma espécie comum nos parques e jardins de Lisboa e os alfacinhas já se habituaram à presença desta barulhenta espécie exótica de plumagem verde e bico vermelho.

Aqui na Arca também já falámos do periquitão-de-cabeça-azul (Aratinga acuticaudata), outra espécie exótica que também vive em liberdade em Lisboa, e que também o corpo verde, mas é ligeiramente mais pequeno e tem a cabeça azul. Anteontem, quando estava perto da janela da sala, fui surpreendido pelo chamamento estridente típico do periquito-de-colar.

Eles costumam passar por aqui a voar, mas o mais perto que os vi pousar foi a algumas dezenas de metro, num eucalipto. Desta vez, o som indicava que o animal estava muito próximo. De facto, estava mesmo ao lado na janela do vizinho, pousado na caixa do estore. Para minha surpresa, o bicho era igual a um periquito-de-colar, mas era azul.

Pelo que entretanto li, há várias mutações que ocorrem no Psittacula krameri (veja-as aqui) e que produzem uma gama muito variada de cores, surgindo indivíduos azuis, mas também completamente amarelos e até albinos. (Este indivíduo tem uma anilha e talvez tenha fugido de uma gaiola.)

 

28
Abr19

Azulinha-dos-calcários ("Cupido lorquinii")

Arca de Darwin

A azulinha-dos-calcários (Cupido lorquinii) é uma borboleta mínima da família Lycanidae: a envergadura varia entre 2,2 e 2,8 centímetros, ou seja, pouco maior que a unha do polegar.

A parte inferior das asas é cinzenta-clara, com pontos e traços pretos. A parte superior das asas dos machos é azul-violeta e debruada a preto. A das fêmeas é acastanhada.

Gosta de encostas rochosas perto de prados e matos.

Existe no Norte de África e na Península Ibérica. (Estas fotos foram tiradas na Ebio de Fontelas, em Loures.)

Voa de Março a Junho.

02
Nov18

Nos tempos em que não existia a palavra AZUL

Arca de Darwin

Na linguagem, primeiro surgem as palavras para designar o preto e o branco, depois o vermelho e finalmente o amarelo e o verde. A palavra "azul" vem depois. E até que haja uma distinção entre "azul" e "verde" não surgirão termos para designar o violeta, o castanho, o cor-de-rosa, o cor-de-laranja e o cinzento. Isto aconteceu com as línguas que nos são mais familiares, mas ainda acontece com algumas menos familiares. Por exemplo, em japonês, tailandês e coreano a mesma palavra designa a cor verde e a cor azul. Em vietnamita, a palavra xanh é igualmente usada para descrever a cor das folhas e a cor do céu. Já os russos têm palavras distintas para "azul claro" e "azul escuro", mas não para "azul".

No romance A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, José Eduardo Agualusa descreve o resultado da ausência de "azul" na pintura e na literatura: "Os antigos gregos, como os chineses ou os hebreus, não tinham uma palavra destinada a designar a cor azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Eventualmente, negro. Na pintura ocidental o mar só começou a ser representado a azul no século XV. Também o céu não era azul. Poetas descreviam-no como rosado, ao amanhecer; incendiado, ao lusco-fusco; leitoso, nas melancólicas manhãs de inverno."

Todo este conhecimento chegou até nós graças à obsessão de William Gladstone (1809-1898), primeiro-ministro britânico, pelo poeta grego Homero (séc. IX a.C. – séc. XVIII a.C.), autor de Íliada e de Odisseia. Em 1858, Gladstone começou por notar as estranhas descrições de Homero na Odisseia: o mar era cor de vinho, o mel era verde, as ovelhas eram violeta!

Gladstone mergulhou no poema e encontrou quase 200 referências ao preto, cerca de 100 ao branco, menos de 15 ao vermelho e ainda menos ao amarelo e ao verde. Azul? Nada. Tal como não aprecia em outros textos da Grécia Antiga.

O filósofo alemão Lazarus Geiger (1829-1870) prosseguiu o trabalho de Gladstone e concluiu que a palavra "azul" também não existia em textos de outras culturas antigas, como nas sagas islandêsas ou contos chineses.

O surgimento tardio na linguagem da palavra para designar a cor azul está relacionado com a escassez de "azul" na Natureza. "Escassez" de pigmentos, claro, porque entre o céu e o mar há uma imensidão de azul.

É importante relembrar a resposta à famosa pergunta: Porque é que o céu é azul? A luz "branca" do Sol é a soma de várias cores. Quando entra na atmosfera, a luz vermelha, que tem o maior comprimento de onda (620 a 750 nanómetros) visível, passa incólume entre os átomos de oxigénio e azoto. Os comprimentos de onda menores – azul (450–495 nm) e violeta (380–450 nm) – chocam com os átomos de oxigénio e de azoto e espalham-se pela atmosfera, originando a cor azul do céu. A este fenómeno chama-se Dispersão de Rayleigh. E porque é que o céu não é violeta? Por causa dos cones que temos nos olhos, que são mais sensíveis ao azul do que ao violeta.

Ora, entre os animais, a cor azul resulta de engenharia, e não de pigmentos, e também é explicada pela Dispersão de Rayleigh, tal como a cor azul dos olhos dos humanos. (Este vídeo explica as diferentes arquitecturas que permitem a cor azul, e refere o único animal capaz de produzir um pigmento azul: a borboleta Nessaea obrinus.) Já as plantas, para obter a rara cor azul, usam um pigmento vermelho e executam umas habilidades que envolvem alterações de pH.

Assim, com tão pouco azul para admirar na Natureza e aparentemente sem fontes de pigmentos, não é de estranhar que a palavra "azul" tarde em aparecer na linguagem. Na verdade, parece que a palavra "azul" só surge quando uma sociedade é capaz de produzir o pigmento equivalente. Daí que a única cultura antiga onde é mencionada a palavra "azul" seja a Egípcia, que em 2500 a.C. produziu o primeiro pigmento sintético da História: o Azul Egípcio, também conhecido por silicato de cobre e cálcio.

O lápis-lazúli, que no século XIV a.C. foi usado para adornar a máscara fúnebre de Tutancámon, há muito que era minerado no Afeganistão. Esta rocha semi-preciosa foi muito utilizada para fazer vários tipos de adornos e, moída, originava um pigmento que serve para produzir tintas. Já agora, a nossa palavra "azul" vem do "lazúli".

Na Europa, as primeiras tintas azuis de origem vegetal foram fabricadas com a planta conhecida por pastel (Isatis tinctoria), cujas flores são amarelas. Na Ásia usaram a Indigofera tinctoria, cujas flores são cor-de-rosa ou violeta, que resultava na cor indigo (anil, 420–440 nm).

Os Romanos tinham várias palavras para diferentes tons de azul. Entre elas, caeruleus e cyaneus, que podemos encontrar nos nomes científicos de algumas das nossas aves, como o chapim-azul (Parus caeruleus), o peneireiro-cinzento (Elanus caeruleus) a pega-azul (Cyanopica cyana) e o tartaranhão-azulado (Cyrcus cyaneus). Outras duas palavras tornaram-se mais comuns: azureus, que originou o nosso conhecido azure; e blavus, que originou o blue e o bleu.

À parte: Associado a este tema há vários textos na Internet onde é sugerido que não conseguiríamos ver a cor azul (ou outra qualquer cor) se não tivéssemos uma palavra para a definir. Estou convencido de que conseguiríamos. Tais textos aludem a uma suposta experiência com a tribo Himba, da Namíbia. Num conjunto de 11 quadrados verdes e um azul, teriam muita dificuldade em identificar o quadrado diferente. Num conjunto com 11 quadrados verdes e um de outro tom de verde (quase imperceptível para nós), seriam lestos a apontar o quadrado diferente. Ao contrário do que é dito, os himbas não têm muitos mais termos para definir tons de verde. Na verdade, têm apenas cinco termos para definir cores, e, sim, parecem usar a mesma palavra para verde, azul e violeta. Não encontro qualquer referência à publicação de um estudo que inclua o teste dos quadrados.