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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

Arca de Darwin

27
Mar14

Causa-efeito: corvos tão capazes como crianças de 7 anos

Arca de Darwin
O escritor grego Ésopo (620 - 560 a.C.) conhecia-lhes a habilidade e usou-a numa das suas famosas fábulas. Em O Corvo e o Jarro relata como um corvo sedento e incapaz de alcançar a pouca água existente num jarro decide enchê-lo de pedras de modo a subir o nível do precioso líquido. Ontem, cientistas britânicos e neo-zelandeses publicaram no PLOS ONE (jornal científico online) os resultados da recriação desta "experiência".corvo_subiacoO corvo da Nova Caledónia passou o teste da "subida de nível" com distinção. Eis algumas tarefas cumpridas com sucesso:
  • Perante dois "jarros" com quantidades diferentes de água optou por colocar objectos no mais cheio;
  • Escolheu objectos que afundavam em vez de objectos que flutuavam;
  • Escolheu objectos maciços em vez de ocos.

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Nos testes que envolviam "entender" a largura do "jarro" e um tubo em forma de "U" falhou redondamente.

Diego_Velasquez,_Aesop

 
09
Abr13

O que sabemos sobre a percepção das crianças face às emoções dos animais?

Arca de Darwin
Por SÍLVIA ROCHA* (texto e imagens)

*bióloga, mestre em Biologia da Conservação, actualmente no 3º ano do programa de doutoramento em Psicologia (ISCTE-IUL)

A percepção das crianças em relação às emoções pode ser definida como a habilidade da criança em expressar, regular e compreender as emoções de maneira apropriada, e também de interpretar corretamente as emoções das outras pessoas. Todo este processo é fundamental para a promoção da estabilidade emocional e para a criação de interações sociais positivas ao longo da vida. Este tema tem sido muito estudado ao longo das últimas décadas no âmbito da psicologia do desenvolvimento, havendo muita informação sobre como é que as crianças vêem e percebem as emoções das outras pessoas e sobre os factores que podem influenciar este processo. Estes factores podem ser individuais, demográficos, sociais (contexto sócio-emocional em que as crianças se desenvolvem), contextuais e ambientais. À medida que crescem, as crianças não só estabelecem relações importantes com familiares e outras crianças, mas também com animais. Pela revisão bibliográfica vemos que existe um grande volume de informação sobre o papel dos animais na nossa cultura, destacando a importância das relações entre crianças e animais, incluindo os benefícios que estas interações trazem para o desenvolvimento da criança.Sabendo isto, e realçando a influência dos animais na vida das crianças, o que é que podemos dizer sobre a percepção das crianças em relação às emoções dos animais? Será que elas olham para as emoções dos animais da mesma maneira que vêem as emoções das outras pessoas? Bem, ao contrário do que se sabe sobre a percepção das emoções dos outros, muito pouco se sabe sobre como é que as crianças percebem as emoções dos animais, e sobre quais os factores que podem influenciar este processo. Considerando a relevância dos animais na vida das crianças, é estranho que este tópico não seja mais investigado. Daqui, nasceu a ideia para o meu projeto de doutoramento, em que um dos principais objetivos é averiguar a influência dos mesmos factores descritos para a percepção das crianças em relação às emoções dos outros, na percepção relativamente às emoções dos animais. De modo a obter informações sobre as crianças e a opinião que têm acerca dos animais, uma das minhas tarefas é ir a jardins e parques zoológicos para perguntar o que é que elas pensam sobre as emoções dos animais.O inquérito realiza-se depois de elas assistirem a situações emocionais espontâneas que ocorrem no grupo de animais, mais especificamente em chimpanzés e gorilas (apresentam respostas emocionais muito semelhantes às nossas). Neste contexto obtenho informações sobre, por exemplo, a percepção (que é traduzida pelo acerto da resposta da criança em relação ao verdadeiro comportamento emocional do animal), factores demográficos, níveis de experiência/exposição a animais e contexto ambiental.E é sobre este último fator que gostaria de, em seguida, fazer uma abordagem mais detalhada. Porquê? De todos os factores incluídos na minha análise, como individuais, demográficos e sócio-emocionais, o contexto ambiental onde as crianças e os animais se encontram é, de longe, o mais interessante – isto, claro, do meu ponto de vista. Através de estudos da psicologia ambiental, sabemos que o contexto ambiental onde as pessoas se encontram pode fortemente influenciar a percepção e as respostas emocionais. Da mesma maneira, e aplicando este conhecimento à realidade dos jardins e parques zoológicos, será que a percepção das pessoas e, mais importante, a percepção das crianças em relação às emoções dos animais, pode ser afetada pelo ambiente e condições onde os animais se encontram? Este é o caso particular dos zoos e parques, em que animais vivos têm um efeito muito forte na indução de respostas emocionais e na aprendizagem dos visitantes. O estudo da percepção das pessoas neste contexto ambiental é recente na literatura, e surge em paralelo com a emergente mudança do papel dos jardins zoológicos na sociedade. Cada vez mais estas entidades são obrigadas a assumir uma posição educacional com funções de conservação, em oposição à velha imagem de coleções de animais. A nova máxima é qualidade acima de quantidade. Em consequência, verifica-se a alteração do tipo de instalações dos animais, passando de espaços pequenos feitos de cimento e com grades, para instalações com design mais naturalísticos e apropriado à biologia e comportamento da espécie. São estes os zoos modernos. A realização de estudos sobre a opinião pública, relativamente ao ambiente dos zoos e de como as pessoas percepcionam estes animais, revelou que os visitantes são mais reativos aos animais quando eles estão em ambientes naturalísticos, adquirindo mais informação e aprendendo mais sobre o comportamento e ambiente natural da espécie. Estes resultados apoiam o pressuposto de que a percepção e o conhecimento das pessoas pode ser afetado pelo ambiente em que os animais se encontram. Como a maioria destes estudos é realizada com população adulta, muito pouco se sabe sobre a influência do design de instalações na percepção das crianças, e se elas associam o estado emocional do animal ao tipo de instalações. No entanto, pela minha experiência, e como seres curiosos que as crianças são, as “casas” dos animais são sempre alvo de muitos comentários e perguntas. Estas constantes referências dizem-me que o meio circundante ao animal é de algum modo importante para as crianças, que muitas vezes comparam-nos com as suas próprias casas.Ainda com muitas horas de investigação por fazer, e também a contar com alguma sorte, talvez os dados do meu estudo possam elucidar um pouco melhor a maneira de como é que as crianças olham realmente para as emoções dos animais.Apesar da falta de conhecimento, não podemos deixar de reconhecer que a aplicação de uma abordagem mais real na aprendizagem das crianças sobre o mundo natural pode ser muito importante na construção do conhecimento factual e de atitudes, bem como no desenvolvimento de empatia pelos animais. 
09
Abr13

Novo “post convidado”

Arca de Darwin
A Arca tem o enorme prazer de apresentar mais um “post convidado”, desta feita a cargo de Sílvia Rocha, bióloga com mestrado em Biologia da Conservação, que abordará a forma como as crianças percepcionam as emoções dos animais, tema do seu actual programa de doutoramento em Psicologia.Será que as crianças olham para as emoções dos animais da mesma maneira que vêem as emoções das outras pessoas?Além deste tema, as principais linhas de investigação de Sílvia são: Psicologia das emoções; empatia emocional; comportamento facial e reacções emocionais a estímulos faciais; biologia da conservação e estratégias de desenvolvimento e melhoria do bem-estar de primatas (particularmente chimpanzés) em cativeiro.  

                     Sílvia Rocha (foto cedida)

Sílvia está no 3º ano do seu programa de doutoramento no Centro de Investigação e de Intervenção Social (CIS) do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

03
Abr12

Geração indoor

Arca de Darwin

O escritor norte-americano Richard Louv, autor de Last Child in the Woods (2005), acredita que as crianças que não têm contacto com a natureza sofrem de “distúrbio de deficit de natureza” (nature deficit disorder), ou seja, têm a saúde e o desenvolvimento em risco. Esta tese é defendida por investigadores de diversas áreas – médicos, sociólogos, pedagogos, etc.. Isto porque brincar ao ar livre é óptimo remédio contra a obesidade e a hiperactividade, e tem efeitos positivos na capacidade de aprendizagem, auto-estima, criatividade, sociabilidade e saúde. Além disso, por desconhecerem o mundo natural, não terão disponibilidade para protegê-lo quando crescerem.

Qual a dimensão deste problema?

Uma sondagem realizada em 2010 no Reino Unido, pelo canal de televisão Eden, inquiriu 2000 crianças entre os 8 e os 12 anos de idade. Eis alguns resultados:

  •     64% brincam fora de casa menos de uma vez por semana;
  •     28% não passeiam no campo há mais de um ano;
  •     21% nunca visitaram uma quinta;
  •    20% nunca subiram a uma árvore.

Mas há mais. A distância a que as crianças se afastam de casa para brincar diminuiu 90% em relação aos anos 70. O que não espanta, já que 43% dos adultos consideram que a idade ideal para que os filhos comecem a brincar sozinhos na rua é 14 anos. Sem surpresa há agora mais crianças admitidas em hospitais britânicos por caírem da cama do que por caírem de árvores.

Nos Estados Unidos o panorama é semelhante. Um artigo publicado em 2006 na revista Journal of Environmental Management, dava conta de um decréscimo de 20% nas visitas aos parques naturais nos últimos vinte anos. Os autores referem que 98% dos resultados são explicados com base no preço dos combustíveis e no tempo gasto pelos norte-americanos a:

  •   Ver filmes;
  •   Navegar na internet;
  •   Jogar videojogos.

Um outro estudo, publicado em 2006 pela Fundação Família Henry J. Kayser, debruçou-se sobre o número de horas diárias que as crianças entre os 0 e os 6 anos passam em frente de um qualquer tipo de equipamento electrónico. Conclusão: Passam pelo menos duas horas diárias em frente de um ecrã. Note-se que 68% das crianças entre os 0 e os 2 anos usam diariamente este tipo de aparelhos.

E por cá, a criançada ainda brinca ao ar livre?