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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

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Arca de Darwin

02
Jan14

Balanço de 2013 – Ratos atirados de helicóptero matam cobras

Arca de Darwin
No final da Segunda Guerra Mundial, a invasão acidental da ilha de Guam pela cobra-castanha-das-árvores (Boiga irregularis) resultou no desaparecimento de 10 das 12 espécies indígenas de aves e de várias espécies de mamíferos e de répteis.

Cobra-castanha-das-árvores (Boiga irregularis). Foto: Soulgany 101

Além dos danos ecológicos, a cobra-castanha-das árvores causou prejuízos económicos nesta ilha do Pacífico: só em 2005 gastaram-se 4 milhões de dólares para reparar cabos eléctricos destruídos pela B. irregularis.

Tentativas para erradicar ou controlar o réptil invasor incluíram estratégias como o uso de armadilhas, capturas manuais e detecção com cães treinados para o efeito.Uma das estratégias mais eficiente é a utilização de presas contaminadas com veneno.

Foto: U.S. Department of Agriculture

Na Madeira usam-se aviões para libertar machos estéreis, mas vivos, de mosca-da-fruta. Em Guam recorre-se a helicópteros para atirar ratinhos mortos, presos a um cartão ligado a uma fita de papel, e injectados com 80 miligramas de – imagine-se – Paracetamol, dose letal para a cobra-castanha-das-árvores.

Foto: U.S. Department of Agriculture

Assim, em 2013, realizou-se a quarta largada aérea, que contou com 2.000 roedores. Espera-se que ao fim de 4 a 5 semanas este método de controlo diminua o efectivo populacional em cerca de 80% a 90%.Estima-se que a população de B. irregulares de Guam ronde os 2 milhões de indivíduos. A espécie já foi avistada noutras regiões próximas de Guam, mas ainda sem indícios de reprodução.Como nunca é demais lembrar o cuidado que todos devemos ter para que espécies exóticas não se tornem invasoras, aqui ficam as recomendações do Instituto da Conservação da Natureza (ICN):
  • No caso de ter uma espécie exótica (mesmo que não seja invasora) e se não a puder manter, nunca a liberte na natureza, contacte o ICN.
  • Antes de plantar espécies no recreio da sua escola, em casa ou em espaços públicos assegure-se de que não são invasoras nem têm risco ecológico conhecido. Consulte a legislação.
  • Se existirem espécies invasoras no recreio da sua escola ou em espaços públicos informe-se acerca da melhor forma de as erradicar e substituir e faça um projecto de reabilitação com os alunos e a autarquia ou outras entidades.
  • Não compre espécies invasoras e informe o ICN se as encontrar à venda.
 
25
Jul13

Evolução, invasoras e a publicação anteriormente conhecida por “jornal de referência”

Arca de Darwin
aqui falei da relação difícil entre o jornalismo e a natureza. Essa dificuldade estende-se a outras secções dos media e tende a agravar-se à medida que cada vez mais bons jornalistas são despedidos, e depois substituídos por estagiários não remunerados, que ficam apenas três meses nas redacções. As duas “gafes” seguintes ocorreram no jornal Público – supostamente o diário nacional de referência –, uma no final de Junho e outra em meados deste mês.

Chorão-das-praias, Ericeira

A mais recente não é da autoria de um jornalista – é de uma engenheira hortofrutícola e arquitecta paisagista –, mas passou o crivo da edição. Com o título Vamos cultivar suculentas e ilustrado com a foto de um chorão-das-praias, o artigo começa assim: “Erva-pinheira, arroz-dos-telhados ou chorões-das-praias são apenas alguns exemplos destas plantas, que, por serem fáceis de cuidar, são ideais para novatos. Podem ser implantadas em vasos, floreiras ou jardins”. Na verdade, o chorão-das-praias (Carpobrotus edulis) não pode. Porquê? É ilegal, visto tratar-se de uma espécie exótica e invasora. (mais informação sobre este artigo, aqui)

Melro, Parque das Conchas, Lisboa

A mais antiga é um atropelo ao evolucionismo (e não só). Com o título Melros da cidade evoluem e ficam mais tímidos, começa assim: “A revolução industrial teve o condão de acelerar o crescimento das cidades, com um impacto incontornável no mundo natural. Um dos primeiros efeitos observados, que hoje é um exemplo clássico da adaptação de uma espécie ao ambiente, aconteceu quando uma população de borboletas, em poucas gerações, passou a ter asas pretas em vez de brancas graças à fuligem produzida pelas fábricas”. Não percebo bem o que o autor quer dizer, mas o que aconteceu foi que a população de borboletas já tinha variantes com asas pretas e outras com asas brancas (as predominantes antes da revolução industrial). A poluição que depois surgiu escureceu os locais onde as borboletas pousavam. Nestas condições, a cor preta das asas servia de camuflagem, aumentando a probabilidade de sobrevivência desta variante. As brancas destacavam-se no preto e estavam mais vulneráveis aos predadores.Então, e os melros? A escolha do adjectivo “tímido” contraria o que qualquer pessoa facilmente constata quando compara o comportamento desta ave na cidade com o comportamento dela no campo: nos jardins da cidade quase que vêm comer à mão dos humanos; no campo fogem assim que detectam a presença humana. O estudo que serve de base ao artigo do Público refere que os melros da cidade evitam objectos novos no seu habitat, enquanto que os do campo aproximam-se destes elementos estranhos.E assim vai o jornalismo de referência.
26
Fev13

Peixe-dragão-leão – Tanzânia (selos)

Arca de Darwin
Pterois volitansTanzânia. 1967. Moeda : xelim tanzanianoNativo dos oceanos Pacífico e Índico, o exuberante peixe-dragão-leão (Pterois volitans) foi introduzido nas águas da Flórida no início dos anos 90. De então para cá tornou-se uma ameaça ao delicado ecossistema tropical do Mar das Caraíbas. Sem predadores – mesmo que outros animais o reconhecessem como presa não ousariam enfrentar os enormes espinhos venenosos – a sua densidade populacional aumentou, diminuindo a das espécies de que se alimenta.

Os espinhos funcionam como armas de defesa e expelem o poderoso veneno apenas quando comprimidos. O veneno não é letal para os humanos, mas provoca dores horríveis.

26
Nov12

Periquitão-de-cabeça-azul

Arca de Darwin
A Arca inaugura hoje a categoria “Exóticas”. “Uma espécie Exótica ou Não Indígena é a que ocorre num território que não corresponde à sua área de distribuição natural”, explica o site do Instituto para a Conservação da Natureza (ICN - com mais F ou menos B). E acrescenta: “A introdução de espécies não indígenas é considerada uma das principais causas de perda de biodiversidade”.

Periquitão-de-cabeça-azul. Quinta das Conchas

Isto porque as exóticas podem tornar-se invasoras e substituir nos ecossistemas as espécies indígenas. Exemplos? Em Portugal são bem conhecidas as pragas de várias acácias, ou mimosas (Acacia sp.) e de chorão-das-praias (Carpobrotus edulis). Lá fora, casos emblemáticos são a introdução intencional de perca-do-nilo. no Lago Vitória, que provocou a extinção de mais de 200 espécies indígenas, e a invasão acidental da ilha de Guam pela cobra-castanha-das-árvores, com a consequente desaparecimento de 10 das 12 espécies indígenas de aves e de várias espécies de mamíferos e de répteis.

Para já, o Periquitão-de-cabeça-azul (Aratinga acuticaudata) – não confundir com o mais abundante e estridente periquito-de-colar – está longe do estatuto de Invasor. Há observações pontuais em Évora e Faro, mas é em Lisboa que a espécie prospera. Originário da América do Sul, e fugido de uma qualquer gaiola, as primeiras observações remontam a 1998, no Jardim da Estrela, onde existiam pelo menos sete indivíduos, como refere Rafael Matias no livro Aves exóticas que nidificam em Portugal Continental (2002). Em 2007 figurava na categoria E3 da Lista Sistemática das Aves de Portugal Continental (publicada no Anuário Ornitológico), ou seja, a de “espécies observadas de forma ocasional sem indícios de reprodução”. A verdade é que o periquitão-de-cabeça-azul é já presença regular em vários jardins da capital (Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, Jardim do Torel, Tapada da Ajuda, Jardim do Campo Grande, Quinta das Conchas, Jardim Amália Rodrigues, Quinta das Conchas, etc.). Daí que, e como escreve Rafael Matias no Anuário Ornitológico (2011), é “improvável que não haja reprodução em liberdade”.

O ar inofensivo, e até simpático, desta pequena ave (comprimento entre 33 e 38 centímetros) da família Psittacidae e de outros animais de estimação não deve ofuscar o facto de que as espécies exóticas são potenciais invasores. Por isso, aqui ficam algumas recomendações do ICN:
  • No caso de ter uma espécie exótica (mesmo que não seja invasora) e se não a puder manter, nunca a liberte na natureza, contacte o ICN.
  • Antes de plantar espécies no recreio da sua escola, em casa ou em espaços públicos assegure-se de que não são invasoras nem têm risco ecológico conhecido. Consulte a legislação.
  • Se existirem espécies invasoras no recreio da sua escola ou em espaços públicos informe-se acerca da melhor forma de as erradicar e substituir e faça um projecto de reabilitação com os alunos e a autarquia ou outras entidades.
  • Não compre espécies invasoras e informe o ICN se as encontrar à venda.