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Arca de Darwin

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

"Look deep into nature, and then you will understand everything better", Albert Einstein

Arca de Darwin

15
Mar15

O Ano do Carneiro (post convidado)

Arca de Darwin
Texto e fotos: LUIZ FORMIGA*

*Geólogo

Devido ao absurdo crescimento da China na última década e à proximidade da Austrália, Sydney é destino certo para a classe média chinesa. Some-se isso à maior data festiva do calendário chinês (o Ano Novo, neste caso o ano do Carneiro) e Sydney torna-se um lugar bem interessante para se estar. Tive essa sorte! Eu e a minha namorada tínhamos planeado para Fevereiro um final de semana na costa Leste da Austrália (moramos na costa Oeste, em Perth) e foi uma grata surpresa chegar à cidade e encontrar todas as festividades do Ano do Carneiro.luizformiga 1luizformiga 2 luizformiga 3 luizformiga 4 luizformiga 5 luizformiga 6 luizformiga 7 luizformiga 8 luizformiga 9 luizformiga a 10 luizformiga a 11 luizformiga a 12 luizformiga a 13 
04
Set14

Borboleta-do-medronheiro (post convidado)

Arca de Darwin

Desta vez o Paulo Pereira teve a gentileza de enviar à Arca esta linda imagem de uma borboleta-do-medronheiro (Charaxes jasius), com o rio Zêzere em Pano de fundo. Com 85 milímetros de envergadura, ela é a maior borboleta diurna de Portugal, e é sem dúvida uma das mais bonitas.

borboleta-do-medronheiro Paulo_Pereira 1

Como o nome indicia, alimenta-se do medronheiro (Arbutus unedo) - a lagarta das folhas e o adulto dos frutos. Assim, distribui-se pela bacia do Mediterrânico e pelo Norte de África, ainda que o medronheiro também exista em zonas mais a Norte na Europa. Como os medronhos só amadurecem por esta altura (final do Verão e início do Outono), esta é a época ideal para observá-la.

borboleta do medronheiro paulo pereira 2

27
Mai14

Antropoceno (post convidado)

Arca de Darwin
TEXTO (e origami): SANDRA MONTEIRO*

*Directora do Le Monde Diplomatique - edição portuguesa

A criação de uma consciência mundial que dê prioridade à reestruturação da economia e das sociedades, de modo a que as actividades humanas possam harmonizar-se com a sustentabilidade ambiental, exige que os cidadãos deixem de ser essencialmente responsabilizados por comportamentos e decisões individuais, como consumidores, e adquiram uma renovada capacidade de influenciar as escolhas políticas que podem garantir essa harmonização.origamiA actual confluência entre a crise económico-social e a crise ambiental mostra bem a necessidade de os cidadãos participarem na construção de um programa unificado que contrarie a espiral de recessão económica, regressão social e alterações climáticas desastrosas. Esse programa de keynesianismo ecológico, ou «New Deal Verde» (Robert Pollin), assenta em planos públicos de investimento capazes de dinamizar a procura interna e o crescimento económico. Planos que potenciam a máxima criação de emprego justamente por estarem associados a uma «economia limpa»: a que reestrutura os edifícios para lhes melhorar o comportamento térmico e a eficiência energética; a que aposta numa rede inteligente de transportes públicos; a que aposta nas fontes de energia renováveis (eólica, solar e biomassa) reduzindo as emissões de dióxido de carbono. As medidas que podem evitar a catástrofe ambiental são as mesmas que evitam a catástrofe social. Precisa o mundo de mais crise para tomar consciência disso?
09
Nov13

Onde a Biodiversidade se Esconde (post convidado)

Arca de Darwin

Texto e fotos: Miguel Costa*

* (fotógrafo, estudante de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa)

O local,

 Fronteira entre Portugal e Espanha, a freguesia da Ajuda, Salvador e Santo Ildfedonso foi, na margem do Guadiana, cenário de inúmeras batalhas durante séculos que tanto pretendiam devolver Olivença a Portugal como pretendiam tirá-la.

Com uma paisagem formada por suaves encostas com uma significativa cobertura de mato ribeirinho e áreas de montado, o local mais atraente e com interesse turístico é aquele vulgarmente conhecido como Ajuda.

Quando o sol se põe os barulhos nocturnos imperam, dando ao local um ambiente sinistro. A única luz é aquela que vem dos candeeiros que iluminam a Ermida de Nossa Senhora da Ajuda

Perto da cidade de Elvas, a Ajuda do Salvador é de fácil acesso, com lugar para estacionar junto à Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, localizada na margem direita do Guadiana, na encosta sobranceira onde se encontra uma ponte destruída pela Guerra da Restauração. O rio é acompanhado por monumentos arqueológicos, moinhos e fortalezas, que demonstram uma zona já habitada e alvo de guerras há muitos séculos.

O Guadiana proporciona condições ideais para a variedade de formas de paisagem e biodiversidade. Assim, temos nesta região zonas húmidas – os pegos dos cursos de água na estação seca e vários charcos – e também podemos usufruir dos montados povoados pela azinheira e sobreiro, os matos e os campos de cultivo.Esta variedade paisagística contribui para uma flora muito rica - desde soberbos eucaliptos a raras e delicadas flores – e uma fauna conhecida pela enorme variedade de aves estepárias.Esta junção curiosa que se cria em torno do rio Guadiana, que delimita a freguesia, cria um ambiente mágico que devia ser mais reconhecido.a flora,         O vento seco assobia entre as azinheiras (de nome cientifico Quercus ilex). São elas que, entre as árvores, imperam, não fosse esta uma freguesia do Alentejo. No chão, as bolotas descansam à sombra daquela que antes as pendurou. Esta árvore de folha persistente não apresenta preferência por nenhum solo em particular, pelo que podemos vê-las tanto nas vastas planícies do Alentejo como nas margens do Guadiana.Em menos quantidade está o choupo branco (Populus alba), contudo, a dimensão de uma árvore adulta desta espécie chega até aos 30 metros, o que faz com que esta árvore de folha caduca não passe desapercebida, menos ainda na primavera, quando tem uma bela floração com amentilhos pendentes. E, também mais disperso, o eucalipto, relativamente recente em Portugal.

Brotando do sólido tronco do eucalipto, uma ainda verde ramificação saúda o sol

Ainda que sejam as árvores aquelas que nos cobrem a vista, tropeçamos constantemente na vegetação ribeirinha e nos enovelados arbustos.  Vemos inúmeros tamujos (Securinega tinctoria), que cobrem a zona mais próxima da margem. O tamujo tem muitos ramos finos, rígidos e espigados, o que dificulta a passagem de quem se atreve a avançar para locais mais afastados da ermida e das pontes.

De ramos finos e espigados o tamujo emerge numa quantidade bastante elevada nas proximidades do rio, sendo dos arbustos que mais se destaca

 Em determinadas épocas do ano, o roxo salpica a paisagem – é o rosmaninho (Lavandula stoechas), linda planta que servia para cobrir o chão durante as procissões. Aqui, faz parte do equilíbrio, tendo uma grande influência nas borboletas diurnas, já que fornece alimento a algumas espécies destes insectos voadores.

Uma borboleta pousa no rosmaninho, banqueteando-se com o pólen

No verão, o rosmaninho é acompanhado de o pampilho, como a margarida (Chrysanthemum leucanthemum) e o malmequer (Chrysanthemum pinnatifidum), ora amarelos ora brancos, e que servem de plataforma a muitos insectos.

Não muito longe, o pampilho serve de plataforma a dois insectos, que lutam pela posse da flor

Também o cardo (C. cardunculos) é necessário para os lepidópteros, visto que há aqui espécimes que colocam os seus ovos nesta planta.

A mesma planta é utilizada por estas distintas espécies de borboletas diurnas

         Destaca-se ainda o Narcissus humilis (narciso), que, segundo o ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas) é uma espécie de conservação prioritária: “Em Portugal está bastante ameaçada e no limite da sua área de distribuição”.Poderia enumerar muitas outras plantas que fazem parte destas galerias e matos ribeirinhos meridionais. Na primavera as cores revelam a biodiversidade enorme da flora, fazendo-nos esquecer que vivemos num clima caracterizado por verões e primaveras excessivamente quentes e secos.a fauna,Quase tocando na copa das árvores, um imponente ser branco e preto voa em círculos vertiginosos sobre o rio. Trata-se de uma cegonha-branca.

Roçando com as asas no rio, esta cegonha-branca voa velozmente a escassos metros da água

Se caminharmos para nordeste da ponte, onde o rio vem de Badajoz, já afastado do turismo e da movimentação, as margens do Guadiana tornam-se subitamente num local muito distinto, mais selvagem, de difícil acesso e vegetação densa.  Desvanecendo-se o barulho das vozes e dos carros a passar na recente ponte, a única presença é o distante fluxo do rio, sendo uma ou outra vez interrompido pelo barulho de um peixe que resolve irromper a água saltando, ou por uma gralha-de-nuca-cinzenta (Corvus monedula)  que atravessa o caminho.A gralha-de-nuca-cinzenta é uma ave de pequeno porte que é vista com facilidade, inclusive pousada nas árvores mais altas, em grupos grandes. Das que vão ser enumeradas é a ave mais fácil de observar, já que até mesmo as ruínas da velha ponte são frequentadas pelos seus bandos. E, mesmo para os mais distraídos, não passa desapercebida, já que as suas vocalizações (como um grasnar metálico) são inconfundíveis e audíveis a distâncias consideráveis.

As gralhas-de-nuca-cinzenta, que se juntam em grandes bandos, escolheram esta árvore para posar. Enquanto umas limitam-se a limpar as asas com o bico, outras observam atentas quem aparece nas proximidades

 Em algumas árvores secas encontram-se ninhos abandonados de pardal-espanhol (Passer hispaniolensis), o qual, embora numa quantidade pouco significativa, também marcam presença em vários pontos desta zona da freguesia. Na vegetação firme, onde num momento estamos em terra assente, no outro já nos vemos dentro rio, habitam os patos-trombeteiros (Anas clypeata), que nadam lentamente no rio sereno. São fáceis de encontrar e são mais abundantes durante o Inverno.Avistando duas figuras pousadas em grandes pedras que se salientam no meio do rio, foquei com a lente da máquina fotográfica para ver melhor do que se tratava. Vi dois milhafres-pretos (Milvus migrans). Estes predadores adaptaram-se bem à presença humana, e até podem ser vistas em cidades, onde caçam pombos e ratos. Não se encontram em risco e são das aves de rapina mais comuns.Mais isoladas estão as cegonhas-brancas (Ciconia ciconia). Observei um casal, com um ninho bastante grande, composto por ramos entrelaçados que é utilizado em anos sucessivos, pelo menos desde 2007. Na construção do ninho, onde são colocados 3 a 7 ovos, cooperam ambos os membros do casal. Estamos a assistir a uma fase de recuperação destas aves, dado que em meados dos anos 80 a espécie passou por um período em que a população diminuiu gravemente. Não é uma ave vulgar nesta zona, mas, ainda dentro da freguesia, é vista com mais frequência na Torre de Bolsa.Embora sejam as aves que se destacam, não é a única fauna local. A Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso é uma zona de montado, e, assim sendo, é aproveitada para pastagem. Muitas vezes vemos vacas (Bos taurus) espalhadas por toda a margem, e a ponte antiga não é excepção. Por sua vez, sempre atentas, as garças-boieira (Bulbulcus ibis) nunca se afastam do gado bovino, estabelecendo uma relação de simbiose: quando a manada vai saciar a sede, a garça-boieira faz a limpeza ao grande mamífero, enquanto a ave usufrui de um bom almoço à base de insectos e parasitas.

A manada de vacas aproxima-se do rio calmo. Uma cria caminha vagarosamente junto às pernas da progenitora

 Ora correndo pelos campos de cultivo nas imediações do rio, ora passando velozmente por baixo dos arcos da ponte da Ajuda, os coelhos-bravos e as lebres desaparecem diante de nós num abrir e fechar de olhos. Por sua vez o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) apanha um banho de sol num tronco seco que interrompe o rio. Depois, lentamente, desce para as águas pouco profundas, onde algumas carcaças de lagostim servem de alimento a um grupo de vespas famintas.

Lagostim corajoso, luta contra a objectiva da máquina, levantando-se nas patas traseiras e aprumando as pinças. Acaba por, a pouco e pouco, escapar-se para a segurança das águas pouco profundas do Guadiana

 É difícil encontrar um eucalipto, um choupo-branco ou uma velha azinheira que não tenha um conjunto de aves que observam este panorama ou limpam as penas com o bico. É difícil aqui estar sem ouvir um barulho miudinho e ver a ponta da cauda de uma osga a desvanecer-se numa fenda rochosa.  E é quase impossível pisar a terra húmida e lamacenta que se afunda no inicio do leito sem ter incontáveis libelinhas a rodear os nossos pés. Nota-se que há um equilíbrio frágil no ecossistema, o que lhe dá uma certa elegância, visto haver tanta interacção entre os vários elementos da fauna e da flora circundante.e a gente.“Puxa com força. Olha, ele escapa! Esses gajos têm força”, diz um pescador para o outro, que acabara de apanhar um cágado com a cana de pesca. O animal luta pela vida, de pernas para o ar, num esforço que acaba por revelar-se desnecessário, uma vez que, depois de o ter apanhado, o pescador tira-lhe o anzol e liberta-o.

Seja pai e filho, marido e mulher, ou simplesmente um grupo de amigos a passar uma boa manhã de domingo, a pesca na Ajuda é uma boa alternativa à barragem do Alqueva. Na primavera e no verão vemos uma grande incidência na pesca, já que um acordo entre Portugal e Espanha permite a pesca no Guadiana durante a época da desova.Não é só a pesca que traz as pessoas aqui. O turismo “histórico” também marca a presença. Gente vinda de Olivença e de Elvas é atraída pela curiosidade de ver o local onde os seus antepassados outrora combateram.

Moinhos que durante séculos moeram o trigo que alimentavam as gerações que nos precederam, símbolos do trabalho e da paz, ainda hoje estão presentes ao longo das margens do Guadiana, capazes de resistir anos a fio às forças das cheias. Para alguns, são memória, e nada antiga, de pescarias e caldos comidos à sua sombra

Outros apenas veem este local como um bom sítio para fazer um piquenique com a família, fugindo à banalidade da cidade. Alguns apenas querem usufruir da paisagem e do rio para a fotografia e canoagem. É também um local escolhido para convivência, no âmbito de programas como o “Encontro Transfronteiriço de voluntários” e os “Encontros da Ajuda”.Como seria de esperar, toda esta actividade, com alguns maus comportamentos ecológicos, acaba por, a pouco e pouco, degradar a zona. Placas de madeira com escamas nelas coladas pelo intenso calor do sol, garrafas de vinho e pneus abandonados são apenas alguns exemplos de vestígios da actividade pesqueira, de acampamentos na época da Páscoa e de piqueniques. É grave esta poluição constante, já que, com o aumento do leito do rio, o Guadiana acaba por acarretar  todas estas formas de conspurcação, contribuindo para problemas graves nas espécies que aqui habitam.Felizmente, algumas medidas ambientais vão sendo tomadas, como o cuidado com as espécies protegidas e a plantação de algumas árvores.

Sim, trata-se mesmo de uma jovem árvore dentro de uma jaula de arame farpado. Este ainda pequeno eucalipto foi aqui plantado e protegido para garantir a continuação da espécie

Todos estes esforços vão aumentar e rejuvenescer o local, mantendo a Ajuda um local estável neste planeta tão dinâmico.
09
Nov13

Um site a visitar; um fotógrafo a descobrir

Arca de Darwin
É com grande satisfação que a Arca apresenta o próximo post convidado. Nele, o fotógrafo e estudante de Biologia Miguel Costa, 20 anos, guia-nos pela biodiversidade da freguesia da Ajuda, Salvador e Santo Ildefonso, perto de Elvas. Mas não só. Por exemplo, fala-nos também das gentes e das “inúmeras batalhas” testemunhadas pelas margens do Guadiana.

Foto: Miguel Costa

O Miguel não fotografa só a natureza. A lista de exposições e concursos em que participou – e, no segundo caso, venceu, como o “Safari Fotográfico” do Jardim Zoológico de Lisboa, em 2012 – atestam bem a sua versatilidade (comprove-a visitando o seu site pessoal).

Miguel Costa. Foto: Miguel Costa

Natural de Elvas, em 2007 contribui com cinco imagens para a exposição “Elvas Monumental”. Este ano a Câmara Municipal de Elvas e o Museu de Arte Contemporânea de Elvas organizaram um concurso fotográfico para celebrar a classificação da cidade como  Património da Humanidade pela UNESCO. O Miguel ficou em segundo lugar.

28
Set13

Observação de golfinhos - e não só - em Sagres (post convidado)

Arca de Darwin
Texto e ilustração: Miguel Appleton Fernandes (16 anos, estudante, 11º ano da área de Ciências e Tecnologias, Salesianos de Lisboa)Dia 4 de Setembro cheguei a Sagres, acompanhado de alguns familiares. No porto da Baleeira, várias empresas realizam actividades de observação de espécies marinhas (nomeadamente cetáceos e tubarões, entre outros). Na empresa Mar Ilimitado, conhecemos as três biólogas que coordenam as actividades desta empresa e, antes de embarcarmos, foi-nos feito um briefing sobre as espécies mais avistadas (no verão, altura de maior actividade da empresa) junto à costa, sendo elas, por ordem decrescente de avistamentos: o golfinho-comum, o roaz, a baleia-anã e o boto.

Golfinho-comum (Delphinus delphis), Sagres. Foto: Cristina Appleton Fernandes

Haviam sido feitas, há dias, algumas observações raras, de tubarões-martelo (possivelmente mais perto da costa portuguesa devido ao aquecimento das águas que se verificou este verão) e de orcas. Todos os anos, no início e no fim do verão, as orcas passam por Portugal, a caminho do estreito de Gibraltar, já que este estreito é, nestas duas alturas do ano, um local de passagem dos atuns, que no verão vão desovar ao Mediterrâneo. Isto proporcionar-lhes-á uma alimentação farta e relativamente fácil.

Golfinho-comum (Delphinus delphis). Ilustração: Miguel Appleton Fernandes

Em termos de avistamentos, nomeadamente de golfinhos-comuns, a percentagem de sucesso nas viagens é bastante elevada (acima de 90%, nesta altura do ano, como nos foi informado no briefing). Partimos para o barco, com uma das biólogas, onde o capitão, também entendido sobre as espécies e o seu comportamento, nos aguardava.

Golfinho-comum (Delphinus delphis), Sagres. Foto: Cristina Appleton Fernandes

Iniciámos a viagem e passado pouco tempo avistei uma barbatana dorsal preta e, quando o barco desceu a onda, avistei dois golfinhos. O capitão e a bióloga confirmaram serem parte de um grupo de cerca de 30 a 40 indivíduos da espécie golfinho-comum.

Golfinho-comum (Delphinus delphis), Sagres. Foto: Cristina Appleton Fernandes

Ficámos aproximadamente meia hora com este grupo (que é o limite de tempo, de modo a garantir uma observação sustentável, sem perturbar demasiado a dinâmica do grupo).Os golfinhos, mesmo as progenitoras com crias, nadavam animadamente junto ao barco, dando pequenos saltos fora de água, acompanhando-nos, comprovando o que nos haviam dito no briefing sobre a sociabilidade destes mamíferos. Um golfinho, que despertou a atenção de todos, saltava fora de água, caindo sobre o dorso. O capitão explicou que seria provavelmente a fim de se desparasitar ou simplesmente para se exibir para as fêmeas.

Golfinho-comum (Delphinus delphis), Sagres. Foto: Cristina Appleton Fernandes

Após algum tempo avistámos outra vez o mesmo grupo e ficámos um curto período com ele. Pouco depois avistei várias aves no céu. Subentendi que algo de anormal se passava, porque as aves não se agrupam tão longe da costa (e tão perto da água) “só porque sim”. O capitão apercebera-se igualmente da situação e navegou até ao local. Ao chegar, vimos um Marlim-Azul, que se alimentava. O frenesim provocado à superfície atraíra as aves, cagarras, como o capitão nos indicou que se chamavam.

Miguel Appleton Fernandes, Sagres. Foto: Cristina Appleton Fernandes

Voltámos a terra. Foi uma experiência incrível. Gostei muito e foi um dia muito bem passado na companhia da minha família e do qual certamente me vou lembrar durante muito tempo.
09
Abr13

O que sabemos sobre a percepção das crianças face às emoções dos animais?

Arca de Darwin
Por SÍLVIA ROCHA* (texto e imagens)

*bióloga, mestre em Biologia da Conservação, actualmente no 3º ano do programa de doutoramento em Psicologia (ISCTE-IUL)

A percepção das crianças em relação às emoções pode ser definida como a habilidade da criança em expressar, regular e compreender as emoções de maneira apropriada, e também de interpretar corretamente as emoções das outras pessoas. Todo este processo é fundamental para a promoção da estabilidade emocional e para a criação de interações sociais positivas ao longo da vida. Este tema tem sido muito estudado ao longo das últimas décadas no âmbito da psicologia do desenvolvimento, havendo muita informação sobre como é que as crianças vêem e percebem as emoções das outras pessoas e sobre os factores que podem influenciar este processo. Estes factores podem ser individuais, demográficos, sociais (contexto sócio-emocional em que as crianças se desenvolvem), contextuais e ambientais. À medida que crescem, as crianças não só estabelecem relações importantes com familiares e outras crianças, mas também com animais. Pela revisão bibliográfica vemos que existe um grande volume de informação sobre o papel dos animais na nossa cultura, destacando a importância das relações entre crianças e animais, incluindo os benefícios que estas interações trazem para o desenvolvimento da criança.Sabendo isto, e realçando a influência dos animais na vida das crianças, o que é que podemos dizer sobre a percepção das crianças em relação às emoções dos animais? Será que elas olham para as emoções dos animais da mesma maneira que vêem as emoções das outras pessoas? Bem, ao contrário do que se sabe sobre a percepção das emoções dos outros, muito pouco se sabe sobre como é que as crianças percebem as emoções dos animais, e sobre quais os factores que podem influenciar este processo. Considerando a relevância dos animais na vida das crianças, é estranho que este tópico não seja mais investigado. Daqui, nasceu a ideia para o meu projeto de doutoramento, em que um dos principais objetivos é averiguar a influência dos mesmos factores descritos para a percepção das crianças em relação às emoções dos outros, na percepção relativamente às emoções dos animais. De modo a obter informações sobre as crianças e a opinião que têm acerca dos animais, uma das minhas tarefas é ir a jardins e parques zoológicos para perguntar o que é que elas pensam sobre as emoções dos animais.O inquérito realiza-se depois de elas assistirem a situações emocionais espontâneas que ocorrem no grupo de animais, mais especificamente em chimpanzés e gorilas (apresentam respostas emocionais muito semelhantes às nossas). Neste contexto obtenho informações sobre, por exemplo, a percepção (que é traduzida pelo acerto da resposta da criança em relação ao verdadeiro comportamento emocional do animal), factores demográficos, níveis de experiência/exposição a animais e contexto ambiental.E é sobre este último fator que gostaria de, em seguida, fazer uma abordagem mais detalhada. Porquê? De todos os factores incluídos na minha análise, como individuais, demográficos e sócio-emocionais, o contexto ambiental onde as crianças e os animais se encontram é, de longe, o mais interessante – isto, claro, do meu ponto de vista. Através de estudos da psicologia ambiental, sabemos que o contexto ambiental onde as pessoas se encontram pode fortemente influenciar a percepção e as respostas emocionais. Da mesma maneira, e aplicando este conhecimento à realidade dos jardins e parques zoológicos, será que a percepção das pessoas e, mais importante, a percepção das crianças em relação às emoções dos animais, pode ser afetada pelo ambiente e condições onde os animais se encontram? Este é o caso particular dos zoos e parques, em que animais vivos têm um efeito muito forte na indução de respostas emocionais e na aprendizagem dos visitantes. O estudo da percepção das pessoas neste contexto ambiental é recente na literatura, e surge em paralelo com a emergente mudança do papel dos jardins zoológicos na sociedade. Cada vez mais estas entidades são obrigadas a assumir uma posição educacional com funções de conservação, em oposição à velha imagem de coleções de animais. A nova máxima é qualidade acima de quantidade. Em consequência, verifica-se a alteração do tipo de instalações dos animais, passando de espaços pequenos feitos de cimento e com grades, para instalações com design mais naturalísticos e apropriado à biologia e comportamento da espécie. São estes os zoos modernos. A realização de estudos sobre a opinião pública, relativamente ao ambiente dos zoos e de como as pessoas percepcionam estes animais, revelou que os visitantes são mais reativos aos animais quando eles estão em ambientes naturalísticos, adquirindo mais informação e aprendendo mais sobre o comportamento e ambiente natural da espécie. Estes resultados apoiam o pressuposto de que a percepção e o conhecimento das pessoas pode ser afetado pelo ambiente em que os animais se encontram. Como a maioria destes estudos é realizada com população adulta, muito pouco se sabe sobre a influência do design de instalações na percepção das crianças, e se elas associam o estado emocional do animal ao tipo de instalações. No entanto, pela minha experiência, e como seres curiosos que as crianças são, as “casas” dos animais são sempre alvo de muitos comentários e perguntas. Estas constantes referências dizem-me que o meio circundante ao animal é de algum modo importante para as crianças, que muitas vezes comparam-nos com as suas próprias casas.Ainda com muitas horas de investigação por fazer, e também a contar com alguma sorte, talvez os dados do meu estudo possam elucidar um pouco melhor a maneira de como é que as crianças olham realmente para as emoções dos animais.Apesar da falta de conhecimento, não podemos deixar de reconhecer que a aplicação de uma abordagem mais real na aprendizagem das crianças sobre o mundo natural pode ser muito importante na construção do conhecimento factual e de atitudes, bem como no desenvolvimento de empatia pelos animais. 

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